Imagem de Lobsang Rampa em seu manto vermelho.

Buttercup

Imagem de Lobsang Rampa em seu manto vermelho.
Pensamento, razão, e medo são os freios que retardam a sua evolução espiritual

25 Years with T. Lobsang Rampa25 Years with T. Lobsang Rampa (25 anos com T. Lobsang Rampa) - O primeiro livro de Sheelagh. Sheelagh nos informa sobre o momento em que conheceu o Dr Rampa, as lutas que todos sofreram durante suas inúmeras viagens, especialmente contra a imprensa, que só tem interesse em vender jornais a qualquer custo. A lamentada morte súbita de felinos Fifi Greywhiskers e como Sheelagh teve que dividir companhia com o Dr Rampa para que ele pudesse partir para os campos celestiais. Esta não é uma autobiografia do Dr Rampa, é uma visão privilegiada em suas vidas muito privadas através de Sheelagh olhos e experiências. Compra via Lulu links abaixo.

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Grace, the World of RampaGrace, the World of Rampa (Graça, o mundo de Rampa) - Após de publicar suas lembranças de vinte e cinco anos ao lado de Lobsang Rampa, esta é uma continuação dessa história. Um ensaio maravilhoso em que Sheelagh Rouse oferece uma visão mais profunda da vida muito particular do Dr Rampa e suas visões muito claras sobre ajudar os outros. Buttercup também esclarece de uma vez por todas os muitos rumores escandalosos que circularam ao longo dos anos com relação ao Dr Rampa. Um "deve ler" para todos. Compra via Lulu links abaixo.

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Grace, the World of Rampa

Conheci Lobsang Rampa em Londres em 1954. Isso foi antes de ele escrever o seu livro “A Terceira Visão” (The Third Eye) e antes de se tornar conhecido pelo mundo inteiro. Nessa altura, eu vivia na parte central de Londres com o meu marido e os nossos dois filhos pequenos numa agradável casa de estilo Regency muito perto de Bayswater Road, do lado oposto à última entrada para os Kensington Garden, para quem vem desde o Hide Park Corner em direcção a Notting Hill Gate. Lobsang Rampa era então conhecido como o Dr. Carl Ku’an, e confidenciou-me mais tarde que a sua primeira visão de mim foi quando quase o atropelei em Kensington Church Street. Não tenho qualquer lembrança desse incidente, que provavelmente foi a causa de ele quase perder a vida nesse dia; simplesmente não o vi. Nesses dias era perfeitamente possível conduzir com bastante velocidade em Londres, e era assim como eu estava acostumada a conduzir o meu pequeno automóvel.

Havia um jardim nas traseiras da nossa casa e, no fim do jardim, tínhamos a habitual garagem, acessível pelas veredas nas traseiras. Tínhamos construído um piso por cima da garagem para acomodar um ajudante geral. No presente, tal ajuda seria chamada de governanta, ainda que nessa altura a palavra “Governanta” era reservada geralmente para a mulher que cuidava de um lar, talvez de um rico comerciante ou, alternativamente, podia referir-se a uma mulher muito competente que supervisionava uma grande casa conjuntamente com o mordomo. Nós não eramos tão importantes. Tínhamos um ajudante e foi no piso do nosso ajudante, por cima da garagem, que encontrei pela primeira vez o Dr. Carl Ku’an. Foi um encontro que nunca esqueci nem esquecerei jamais.

Na sequência desse encontro inicial fui-me gradualmente familiarizando com ele ao longo de poucos meses, pois ele aparecia com regularidade para falar com a minha ajudante. Após essas suas visitas, podia avistá-lo na nossa garagem com uma pequena caixa de cartão na sua mão, dentro da qual colocava as aranhas para alimentar o seu pássaro Myna. Eu perguntavame nessa altura se era esse o principal motivo das suas visitas à minha ajudante, a procura de comida para o seu pássaro de estimação, pois não conseguia ver outra razão pela qual ele gastaria o seu tempo numa mulher que, pelos meus padrões, tinha pouco a oferecer numa conversação inteligente, o tipo de conversação que poderia fazer as suas visitas valerem a pena. Como disse, comecei a conhecê-lo pouco a pouco desta maneira, na garagem procurando aranhas e outros insectos, mas só foi bastante tempo depois de ter começado a escrever “A Terceira Visão” que o visitei e à sua mulher no único quarto que ocupavam. Esta visita permanece na minha memória por mais do que uma razão.

Em primeiro lugar, eles eram pobres, na altura muito pobres, embora sem terem feito por isso. Por essa data, tinham mudado o seu nome para Rampa. Tinha-lhe sido sugerido que ele escrevesse um livro sobre a sua vida como jovem lama no Tibete e, após a sua recusa inicial, concluiu que talvez não houvesse outro meio de ganhar a vida e, por isso, concordou com relutância. Ele achou necessário escrever sob um pseudónimo e mudou legalmente o seu nome de Carl Ku’an para Tuesday Lobsang Rampa. O livro estava progredindo e, na altura da minha primeira visita, as coisas estavam melhorando um pouco porque ele tinha recebido um pagamento adiantado do editor, ainda que não o suficiente para possibilitar a mudança para uma residência melhor.

Eu estava bastante acostumada a visitar pessoas pobres no campo onde cresci, mas a pobreza da cidade é, ainda assim, de uma natureza diferente. Estou a referir-me ao distrito Bayswater de Londres, onde os Rampa viviam num daqueles sombrios e cinzentos blocos de casas Victorianas que tinham visto melhores dias e agora estavam em decadência e com baixa reputação, habitada talvez por doze ou mais pessoas que viviam as suas vidas num quarto, que podiam ter um magro salário por um trabalho miserável, ou podiam até não ter qualquer trabalho e desenrascavam-se de algum modo. A vida para eles era uma batalha perpétua; nela havia pouca facilidade. A comida era escassa e o que eles conseguiam auferir proporcionava uma alimentação mínima. O único quarto onde dormiam, cozinhavam, comiam e existiam era aquecido com um fogão a gás, com um consumo devorador de qualquer poupança que pudessem ter feito na expectativa de uma ou duas horas de calor para confortar os seus débeis corpos e secar as suas roupas.

Eles partilhavam a banheira e o lavatório com outros, tinham de esperar a sua vez e lidar com o lixo deixado pelos primeiros a entrar, a porcaria em volta da banheira, o sujo e os escarros no lavatório, a sanita deixada sem descarga. Este era o contexto da vida dos Rampa quando os visitei pela primeira vez. Foi uma novidade para mim e um pouco chocante.

O seu quarto, no entanto, era diferente. Embora fosse pobremente mobilado não transmitia nenhum dos elementos deprimentes descritos acima, era como se eles se tivessem elevado sobre a sua envolvente e gravado a sua existência própria e única na pedra áspera e fria, uma existência que era acolhedora, tranquila e completa. À medida que uma pessoa entrava no quarto deles vindo da lúgubre paisagem do primeiro andar, a diferença era luminosamente aparente.

Em primeiro lugar foi o incenso. Eles não podiam realmente comprar incenso numa base regular nessa altura, aquando da minha primeira visita, mas esse bastão foi aceso para a minha vinda. Talvez tenha sido por isso que causou uma impressão tão inesquecível.

Quando penso em Lobsang Rampa é do mesmo modo insistente e consistente, o incenso que regressa, o aroma nas minhas narinas … é como eu me lembro dele. O senso comum e a lógica dizem-me que é apenas na minha imaginação. Eu não estou realmente cheirando o incenso, o senso comum e a lógica dizem-me que isso seria impossível. Ainda assim, a imaginação é uma coisa real e poderosa que não deve ser subestimada e, tal como pareço cheirar o incenso, também posso vê-lo no olho da minha mente, retratá-lo claramente, com o seu corpo sólido e braços fortes, a sua cabeça raspada e uma barba rala que esconde um maxilar desfigurado. Eu vejo-o enquanto agarra um grosso e longo bastão de incenso de uma caixa de metal redonda, segura-o na sua mão enquanto o acende com um fósforo, contemplando-o por um momento; então, assoprando gentilmente a chama, coloca-o num pequeno queimador de latão ao lado da cama. A névoa cinzenta esfumaçante, subindo e rodopiando, deixa tranquilidade e paz, aumenta as nossas vibrações, impregnando os nossos seres.

Nesse primeiro dia, Ra’ab, a sua esposa, tinha-me aberto a porta da entrada do prédio e conduziu-me pela escadaria encarquilhada até ao primeiro andar. Já a tinha encontrado antes mas mal a conhecia, ela era diferente do tipo de mulher com que normalmente me associava e fui incapaz de a posicionar na minha categoria algo limitada. Achei as suas reacções levemente anormais, com um lado difícil de analisar.

Não obstante, era a mulher de um homem que eu tinha começado a respeitar profundamente e por isso tratei-a com o mesmo respeito, o que foi, talvez, um erro. Eu estava apreensiva. No local parecia faltar algo. Era desprezível e cheirava a comida estragada e, para tornar as coisas piores, cada degrau rangia à medida que o pisava, causando a sensação de um colapso total a todo o momento. Chegando ao cimo, ela abriu uma das três portas castanhas que davam para o patamar e indicou o caminho para o quarto deles. O Dr. Rampa estava a descansar com os seus pés em cima de uma cama estreita, com um pequeno gato siamês Sealpoint enrolado ao seu colo.

Habitualmente era correto na sua indumentária e sempre que anteriormente o encontrei usava um fato preto com uma camisa rosa ou azul e uma gravata preta. Os seus sapatos não tinham atacadores, eram daqueles em que o pé deslizava ou entrava com a ajuda de uma calçadeira, e mais tarde descobri que eram assim porque dobrar-se era difícil senão impossível para ele. Nesse dia estava em casa e informal, vestindo um confortável roupão vermelho escuro em vez do seu casaco, e pantufas nos seus pés calçados com meias cinzentas. Fui convidada a tomar uma das duas cadeiras do quarto, a outra estava a ser ocupada por um tapete azul dobrado como uma cama que eu supus pertencer ao gato Siamês quando não estava a descansar no colo.

Lembro-me de ter anotado na minha mente que a outra cadeira parecia bastante mais confortável do que aquela que ia tomar. Ao longo do tempo fui descobrindo que esse era um estado de coisas perfeitamente normal. Eu não me consigo recordar de alguma vez ter-me sentido desconfortável ao longo dos dias em que vivi com os Rampa, embora tenha sido frequentemente solicitada a mudar-me da melhor cadeira do quarto para que algum gato Siamês pudesse ocupar o que era considerado o seu lugar de direito. O pássaro Myna já não estava com eles, tendo sucumbido à negligência que tinha sofrido antes de o Dr. Rampa o ter descoberto. O Siamês Sealpoint era o único animal de estimação.

Acomodei-me, descalçando as minhas luvas enquanto me sentava e coloquei-as no chão juntamente com a minha mala, ao pé de mim. Ra’ab tinha uma cafeteira no fogão a gás que já estava a ferver alegremente. Alcançando um grande bule castanho duma prateleira por cima do fogão, ela tirou uma colher de chá do lavatório e mediu três colheres cheias de folhas de chá de uma lata octogonal, algo empenada, localizada ao lado do lavatório, uma dessas latas decoradas à maneira Oriental e dadas geralmente cheias de chá como uma oferta natalícia, um presente de chá. Verteu a água fervente para dentro do bule, ao mesmo tempo que o pequeno gato dormia sonoramente e ninguém fazia qualquer esforço para conversar – não havia qualquer necessidade disso; focalizar a atenção na feitura do chá era calmante em si e era quase um ritual. Assumi que eles bebiam uma grande quantidade de chá durante cada dia. Quando a comida fosse escassa o chá mitigaria a fome deles por um tempo.

A feitura do chá no Tibete teria sido bastante diferente. Eu sabia disso pela leitura do manuscrito de “A Terceira Visão” capítulo por capítulo, enquanto era escrito. Sabia que para o Tibete eram trazidos da India ou da China grandes tijolos de chá, por póneis dos mercadores através das passagens nas montanhas e, nas lamasarias, os tijolos eram partidos pelos monges e atirados para enormes caldeirões de água fervente. Eram adicionados sal e soda e, quando tivesse tudo fervido outra vez, pazadas de manteiga clara eram adicionadas à mistura e tudo era deixado a ferver durante horas. Enquanto Ra’ab fazia o nosso chá nesse dia, atravessou o meu espírito quão diferente devia ter sido a vida no Tibete, como devia ser dura para se enquadrar na nossa cultura ocidental, e quão bem o Dr. Rampa cumpriu o ditado de “vive em Roma como vivem os Romanos”. Eu sabia como ele era relutante em escrever sobre a sua infância e juventude como um Lama no Tibete porque mesmo então, desde o instante inicial, ele sabia que isso traria fama e adulação, notoriedade e descrença, mas nesse ponto, depois de muitas tentativas para achar trabalho, não havia outra opção. Ele tinha de sobreviver e a sobrevivência requeria um rendimento.

Estando sentada no quarto, ocorreu-me que nunca me tinha sentido tão à vontade em novos ambientes. Esse foi o segundo facto memorável da visita, estar sentada calmamente num ambiente não familiar, visitado pela primeira vez, e sentindo estar completamente em casa, mudando os pensamentos na minha cabeça enquanto o chá era preparado. Isso foi significativo. Uma timidez aguda agigantava-se como uma nuvem escura no horizonte da minha vida. É verdade que tinha ultrapassado com sucesso a gaguez paralisante que sofri enquanto criança, mas essa gaguez era um mero sintoma da incerteza que ainda empestava a minha vida, ainda me deixava num estado de inquietação e confusão interna quando era chamada para cumprir deveres sociais e encobria a agitação parecendo controlar a situação. Na presença do Dr. Rampa, este Lama do Tibete, era bastante diferente. Havia alguma coisa nele que anulava o medo e a ansiedade; simplesmente derretiam-se qual névoa matutina ante o sol nascente. Estar dentro do seu raio de influência transmitia um sentimento mágico, uma pessoa era atraída para uma abrangente aura de segurança e calor, e experimentava um tipo de contentamento que advém de se sentir ajustada, alinhada e harmonizada consigo mesma. Eu supunha, realmente, que era exactamente isso que sucedia. Utilizo a palavra “mágico” porque era uma qualidade desconhecida. O que acontecia era uma coisa ainda não compreendida pela ciência e passará bastante tempo antes de o ser.

Antes de relatar o terceiro acontecimento memorável desse dia, permitam-me dizer-vos como consigo conjurar efectivamente essas memórias. Aconteceu assim:

Um Leitor, que desde então se tornou um bom amigo e que gostou do meu livro dos dias em que passei ao lado do Dr. Rampa, escreveu não há muito tempo a perguntar se eu poderia escrever sobre a sua gentileza e generosidade. Na carta, o leitor dizia – “Apreciamos o facto do Dr. Rampa ter ajudado muitas pessoas durante as suas viagens e, embora não queiramos imiscuir-nos nos seus assuntos privados, a nossa curiosidade espicaça-nos, pois a leitura sobre esses assuntos dar-nos-ão muito prazer. Sabendo a alegria que o seu primeiro livro nos deu, poderá escrever um segundo realçando essa generosidade?”. Uma maneira deliciosa e persuasiva de colocar o tema e, apesar de tentada fortemente, ainda assim sentia-me incapaz de levar a cabo tal tarefa. Nunca tomei notas num diário, como poderia lembrar-me de toda a delicadeza, de toda a amabilidade, de todo o encanto da vida do Dr. Rampa? Sentia que era impossível e, mesmo se me conseguisse lembrar, era improvável que pudesse ser capaz de o escrever de uma forma legível e interessante. Generosidade e gentileza era o estado de interacção diário dele, era o seu modo de vida. Colocar isso em palavras não será fácil – era somente isso. Ao longo de diversos meses, todavia, matutei na ideia e decidi que, apesar de tudo, este carinhoso Leitor talvez tivesse razão, talvez pudesse dar prazer a outros se eu, mesmo numa pequena extensão, tentasse delinear a graça do mundo de Rampa, mesmo se apenas um seu traço fosse filtrado através das histórias que irei contar, mesmo um traço fino, ele seria o suficiente. E irei tentar.

O chá estava feito e foi deixado a assentar por poucos minutos. Nós continuámos num silêncio cúmplice. O quarto era simples, duas camas estreitas separadas por um biombo, duas cadeiras e o que devia ter sido uma mesa de cartas ao lado da cama do Dr. Rampa, coberta com um pano e sustentando um rádio pequeno e bastante velho, um relógio, o suporte de incenso em latão e uma lanterna. Havia uma simples cómoda de gavetas e no chão estava uma máquina de escrever manual e uma pilha de papéis. Num canto havia outra pequena mesa raquítica, sustendo um objecto coberto por um pano preto. Mais tarde soube que era um cristal de grande pureza que ele usava para vidência, ou leitura de cristal. Era, como disse, um quarto simples, um quarto pobre mas não afligido pela pobreza. Havia nele um sentimento de bemestar. Mesmo se a vida no plano material não estava bem para os Rampas motivada pela falta de dinheiro, no plano mais elevado no qual eles pareciam viver, tudo estava bem com o mundo.

Ra’ab entregou-me o meu chá. Já estava com leite e o açúcar não foi oferecido. Essa era a maneira do chá ser servido e bebido na casa deles. Lembro-me de ter achado isso bastante intrigante: em casa nós servimos o chá e entregamos leite, limão e açúcar em separado permitindo a escolha ao convidado, mas aqui era apenas de uma única maneira, não havia esforço para impressionar, nenhuma diferença porque um convidado estava presente. Era assim como era feito -ou aceita ou recusa. Gostei bastante disso. Tomava chá com limão em casa, ainda assim gostei deste chá, era diferente.v

Começámos a discutir o livro que ele estava a escrever, o livro que tinha intitulado de “A Terceira Visão”. Enquanto me explicava alguma coisa na sua voz calma, algo lenta, cuidadosamente pronunciada, a minha mente foi de repente distraída por um som, apenas um murmúrio, um som quase imperceptível, como alguém chorando ou gemendo.

Quase de imediato, então, foi abafado como se uma mão ou lenço tivesse sido colocado sobre a boca. Continuámos a nossa discussão. Em alguns minutos o som ouviu-se de novo, desta vez mais alto. Não havia dúvida, era alguém a chorar compulsivamente e vinha de fora do quarto. Olhei para o Dr. Rampa mas ele parecia distraído. Olhei para Ra’ab e ela parecia contrariada, impaciente. “Temos de fazer alguma coisa por ela, Chen,“ disse, “ela está à porta outra vez, chorando”.

“Está? Importa-se de lhe dizer que a irei procurar em breve, Ra’ab.” Eu sabia que ele era quase completamente surdo e não tinha obviamente ouvido o som, porque a sua mente estava concentrada na nossa conversa e nas minhas reacções. Ele não me conhecia bem nessa altura e era necessário concentrar-se profundamente para que pudesse seguir a minha conversação devido à sua falta de audição. À medida que se acostumava a uma pessoa era mais fácil para ele, pois familiarizava-se com os modelos e padrões do pensamento desse individuo e, por consequência, era requerida menos concentração. Ele era clarividente em um grau muito inabitual, mas lidar com mais do que um estranho ao mesmo tempo era, para ele, um enorme esforço.

Ele confiava nos seus poderes de leitura de pensamento e de leitura de lábios enquanto conversava, mas uma pessoa tem de se lembrar que nós frequentemente pensamos algo completamente diferente daquilo que efectivamente verbalizamos, o que complica muito o assunto do ponto de vista de um clarividente.

Ele continuou a sua discussão pois nada aconteceu daí em diante, enquanto Ra’ab foi à porta, abrindo-a apenas o suficiente para a permitir deixar o quarto, e fechá-la atrás de si. Confesso um sentimento de excitação, havia a possibilidade de alguma cena atroz se desenrolar para além da porta fechada. Era alguma coisa muito difícil de acontecer em casa. No meu mundo bem ordenado e bem estratificado, acontecimentos deste tipo simplesmente não aconteciam, as pessoas não iam choramingar nas portas de outras, eles sofriam em silêncio, talvez da mesma forma tão agudamente. Sustive a minha respiração na expectativa.

Ra’ab regressou ao quarto, sentou-se ao fundo da cama e tomou o seu chá, nada dizendo. Relaxei e peguei na minha chávena de chá como ela tinha feito: talvez este tipo de situação fosse uma ocorrência diária, talvez aqui pessoas fossem assassinadas, desmaiassem, chorassem às portas e quem sabe mais o quê mesmo à luz do dia. A minha imaginação estava num completo corrupio e foi com alguma dificuldade que voltei a minha atenção para o Dr. Rampa e para a nossa conversa.

Depressa chegou a altura de me ir embora. Em casa o meu cão não estava bem e eu estava ansiosa de voltar para ele. Pedi ao Dr. Rampa para não se levantar e tomei a sua mão para me despedir. “Adeus, foi muito bom tê-lo visto … Chen”. Algumas semanas antes, ele tinha-me convidado e ao meu marido a utilizar o nome pelo qual era conhecido pelos amigos próximos, mas ainda não me saía facilmente. Depois de um firme e caloroso aperto de mão, mencionou que havia um problema com o livro no editor, alguém estava a colocar em dúvida a sua autenticidade. Ele esclareceu o assunto, mas poderia dizer que era perturbador. Saí com Ra’ab, prometendo voltar em breve.

No patamar olhei de relance para as outras duas portas castanhas mas estavam bem fechadas, guardando qualquer segredo escuro que o seu interior pudesse albergar. Não era fácil ver os degraus das escadas na penumbra e, ao olhar para baixo, vi um rasto do que apenas podia ser sangue, ainda brilhando, um vermelho escuro reluzente, ainda húmido, desde a porta mais distante do patamar até àquela que tinha acabado de deixar. Agarrei o braço de Ra’ab e apontando disse “Veja, sangue!”.

Encolheu os ombros. “Sim. Terei de limpá-lo antes da senhoria o ver. Ela é um horror.”.

“Mas – bem, o que pode ter acontecido? Alguém deve estar ferido. É horrível, Ra’ab!”.

“Oh, é apenas aquela moça, o homem para quem trabalha, eles lutaram. Então ela engravidou e – bem -é uma longa história. Se a senhoria soubesse metade disso tê-la-ia posto na rua. A moça não tem nenhum lugar para ir. Nós fazemos o que podemos por ela. Não é sua culpa e ela está sozinha no mundo.”. Chegámos ao saguão e Ra’ab destrancou a porta de entrada. “Vou consigo até à esquina. Tenho de fazer algumas chamadas telefónicas.”, disse-me.

A esquina não era distante. Tinha-me sentido desconfortável na minha vinda aqui, o outro lado da estrada era território novo - a vida na sua crueza. Senti-me demasiado vestida, constrangida e agora com Ra’ab ao meu lado era um pouco melhor, mas por fim a curiosidade superou a minha autoconsciência. “O que pode fazer para ajudar a moça, Ra’ab, e por que é que tenta? Há lugares para pessoas assim; ela é apenas um peso. Certamente que Chen terá de continuar com o seu livro e não ser incomodado por indesejáveis tais como ela.“ Mesmo enquanto falava pude sentir a sua desaprovação. Virou-se e encarou-me ao mesmo nível, quase com hostilidade.

“Você é inexperiente: não tem qualquer ideia sobre a vida real. Nem todos nascem com uma colher prateada na boca como você. Agora tenho de a deixar.“. Ela entrou na cabine telefónica enquanto falava, pegando afanosamente na lista telefónica e começou a procurar o número que queria, tilintando as moedas no seu bolso. Foi uma despedida curta. Virei-me e fui embora, algo rendida, mas determinada a falar com Chen sobre isso na próxima vez que o visse e, na realidade, não tive de esperar muito.

Uma ou duas semanas mais tarde estava a sair de loja de chá de Fuller com uma caixa de bolos na minha mão quando esbarrei com ele andando por Queensway vindo de Bayswater Road. Cumprimentámo-nos e conversámos breves minutos, então lembrei-me que na realidade queria perguntar-lhe sobre a sua participação na associação com essas mulheres, que eu achava indesejáveis e sem valor. Na realidade não era da minha conta, mas sentia-me compelida a levantar a questão. Era a mulher que vivia no mesmo andar que ele e era a minha ex-empregada que ele tinha regularmente visitado. “Porque não vem tomar uma chávena de chá em minha casa?”, perguntei. “Tenho uma amiga que chega da província esta tarde por alguns dias e ela adora os bolos do Fuller. Tenho a certeza que não se importará que degustemos este.”. Deixámos Queensway juntos, virando à esquerda na Moscow Road e à esquerda outra vez até St. Petersburgh Place, onde vivíamos. Ambos os meus filhos estavam na escola e por isso pudemos sentar-nos descansados na sala de visitas com o nosso chá. Sabendo que era difícil para ele sentar-se por algum tempo numa cadeira estofada ou num sofá, ofereci uma cadeira de costas duras que pareceu servir-lhe bastante bem.

O assunto da minha ex-assistente levantou-se bastante facilmente. Tive de a despedir e fiquei com uma leve preocupação de que ele pudesse ter visto isso com dureza pela minha atitude, particularmente quando ele, segundo ela, “era um cavalheiro que me ajudou mais do que qualquer outro antes”.

“Você sabe, Chen, estive pensando no que a Sra. W. queria dizer quando repetidamente me dizia quanto a ajudou. O que fez por ela? E, ainda mais incompreensível para mim, por que a ajudou?”. Fiz uma pausa, pensando que teria ido um pouco longe de mais, mas ele permaneceu calmo e algo à espera que eu prosseguisse, pelo que continuei, “Pessoalmente, eu achava-a inútil e – bem – falando francamente, uma completa mentirosa nas conversas. As histórias que inventava eram espantosas! De certa maneira era cómico como ela esperava que eu acreditasse nela, e ao princípio acreditei, o que a deve ter encorajado a continuar numa escala colossal. As pessoas importantes que assegurava conhecer! Porque ela tinha um catálogo com todos os aristocratas no Yorkshire, os lugares onde tinha estado, as coisas – bem, nada disso importa, mas estou curiosa, devo confessar, por que gastou o seu tempo com ela”.

Ele não disse nada por um momento, mas sentou-se silenciosamente, quase fazendo-me duvidar da minha posição. Mas como poderia duvidar dela? Eu sabia que a mulher era doente.

“Tem de compreender que eu vejo de modo diferente de vocês pessoas”. “Vocês pessoas”, era uma expressão favorita dele, uma que usava frequentemente, conduzindo à assumpção de que se reconhecia como sendo um de fora. Eu estava bem ciente nessa altura de que ele era clarividente, que podia ver auras, ler pensamentos, ele podia ver no passado e no futuro com clareza. Embora então não conhecesse virtualmente nada sobre assuntos psíquicos, compreendi que a vida devia ser muito diferente para ele do que seria para a pessoa normal.

Entreguei-lhe uma chávena de chá com leite, tal como tinha bebido em casa. Ele tomou um gole e continuou, “Posso ver uma pessoa como ela é realmente, não como ela parece ser superficialmente. Digamos que posso ver a alma de uma pessoa. A Vida é um palco, você sabe, como Shakespeare contou, e as pessoas são como actores vivendo uma vida primeiro e depois outra. Numa vida eles podem ser um pedinte, numa seguinte podem ser um príncipe ou uma princesa -sim, nós até mudamos de sexo para atingir o que temos de aprender em cada vida. Mas eu posso ver para além do actor em cada pessoa, eu posso ver o valor real – ou falta dele”. Fez uma pausa para me permitir digerir o que ele estava dizendo. Embora tenha avançado por si mesmo, reparou quanto pouco eu conhecia, como isso era tudo tão estranho para mim e não era imediatamente compreensível ou aceitável.

“Pensa então que a Sra. W. era merecedora do seu tempo? Eu acho isso difícil de acreditar!”. Estava chocada por apenas pensar nela como sendo um ser com valor. Ela era uma mulher grosseira da classe operária e nem mesmo era honesta a esse ponto.

“Pensa que ela não tem qualquer valor?”, perguntou serenamente. “Bem, o valor que coloca numa pessoa é baseado em como ela se apresenta, em outras palavras, qual a escola que frequentou, qual o seu estatuto social e qual o da sua família, se falam de um modo culto, as roupas que usam, os seus maneirismos e assim por diante.” Foi dito sem criticismo, ele estava meramente constatando um facto e se isso era ofensivo não era essa a sua intenção. “Eu, por outro lado, “ continuou, “ não tenho a vantagem de conhecer como devem apresentar-se precisamente de modo a passarem no seu teste de avaliação. Vejo o que alcançaram num sentido espiritual ao longo das suas vidas na Terra, vejo o que decidiram aprender por si mesmo nesta vida. Muitas vezes a vida é demasiado dura, as pessoas estabelecem aprender lições e tarefas impossíveis, querem aprender demasiadas coisas sem tomarem em consideração as contrariedades que vão encontrar na terra.”.

Eu estava confundida. Tinha de aceitar a verdade do que tinha dito sobre os meus padrões, mas ao mesmo tempo sentia necessidade de os defender. Todo o nosso sistema depende desses padrões. Judiciosamente, no entanto, não disse nada.

Ele sorriu. “Vejo que a perturbei, mas estou apenas tentando explicar-lhe porque tentei dirigir a sua ex-ajudante num caminho que ela pudesse seguir. Será que parece uma interferência? Não era. Ela é suficientemente evoluída para reconhecer que eu era diferente, que eu podia ajudá-la, por isso pediu a minha assistência. Uma pessoa não pode virar costas quando outra pede ajuda e quando há esperança. É um peso de ser psíquico, sabe, é uma responsabilidade que deve ser carregada. E ali havia esperança, uma ténue esperança, mas ainda esperança, por isso tentei. Ela falhou várias vezes e tentei de novo, mas finalmente – foi suficiente. Não valia a pena em ajudá-la pois não queria fazer um esforço sincero. Se uma pessoa procura ajuda e depois rejeita-a, ou falha, não é uma coisa boa – não é uma boa coisa para elas. É como escorregar para trás na ladeira da evolução. Se procurar ajuda você tem de ser sério, tem de ter a intenção de seguir o caminho e tem de fazer um esforço sincero”.

“Compreendo. E sobre a outra mulher, a vizinha da porta ao seu lado? É o mesmo caso?”

“Não, na realidade. Ela é uma vítima. Nunca teve uma oportunidade e seguiu mais ou menos a única via oferecida a tais mulheres como sendo um meio de ganhar a vida. Ela encontrou um homem sem escrúpulos que a utiliza. É a história muito antiga. Sexo, chantagem emocional, sem esperança. Ra’ab e eu fazemos o que podemos por ela apenas porque temos de o fazer, para deixá-la ver que há melhores coisas na vida. Pode ficar preso algures na mente dela, e num dia em que esteja à beira do mais completo desespero ela pode lembrar-se. Você não pode apenas passar por ela e não fazer nada. Ela não procurou a minha ajuda da mesma maneira. Diz-se que um Budista ao ver um homem a afogar-se não deve interferir, deve permitir-lhe que se afogue e cumpra o seu destino ou sofra o seu karma. Bem, sou um Budista, mas também sou altamente clarividente e posso ver mais claramente que a maioria. Oferecer uma mão a esta mulher é humano. Não alterará o seu modo de vida nem as suas escolhas de lições na vida, mas pode dar esperança na sua hora mais escura”.

“Mas você tem melhores e mais importantes coisas que fazer! Você está a gastar o seu tempo.”

“Pensa isso? Se pudesse ver como eu posso, poderia pensar sobre isso de modo diferente – pelo menos tenho esperança de que iria.” Ele sorriu o seu característico sorriso, quase apenas com os olhos, trazendo-nos para um estado bem equilibrado. “Há tanta força negativa a trabalhar neste mundo, tanto que é difícil de encarar porque é demasiado perturbador. Pessoas na sua posição não a vêem, ou se a vêem viram as costas e ignoram. Eu não posso fazer isso porque sinto-o muito agudamente e vejo-o muito claramente”.

Sentei-me silenciosamente, pensando no que ele tinha dito. Havia outra faceta para isso. Mesmo se eu quisesse fazer algo para ajudar a prostituta que vive na porta ao lado da dele, ela não quereria a minha ajuda, a sua reação seria desconfiar e não gostar de mim. Não haveria uma base comum de entendimento. Seria porque, como Ra’ab tinha dito, eu era inexperiente, nascida rica, ou simplesmente havia uma grande discrepância entre essa pobre mulher e eu própria? Ainda assim Chen foi capaz de travar conhecimento com ela no mesmo plano, tal como conseguiu contactar-me no meu plano. Ele era superior a ambas. Nesse momento o nosso sistema de estatutos parecia tão patético e frágil como um castelo de cartas, podia ruir num momento sem deixar rasto. Juntei os meus pensamentos. Eu estava num terreno perigoso.

“Não provou o bolo”. Peguei no prato e ofereci-lhe uma fatia.

“Não, obrigado. Tenho de seguir o meu caminho”. Ele colocou o pires e a chávena na pequena mesa entre nós e levantou-se para sair. “Estou contente por vê-la e obrigado pelo chá. As suas crianças em breve estão a chegar e eu tenho de regressar ao livro.

Está indo lentamente mas bem”.

Encaminhámo-nos juntos para o jardim e apertámos as mãos cordialmente. “Não se perturbe pela nossa conversa. Há tanto para aprender na vida, tanto para ver quando vamos debaixo da superfície.”

Ele estava certo. Mais para aprender, muito mais, e ainda mais para ver debaixo da superfície. Quanto mais, não fazia então ideia.

A memória é interessante. Tome uma descrição escrita de algum evento que anotou quando ocorreu há cinquenta anos e ele será diferente do registo que possa escrever hoje sobre o mesmo evento, um registo que escreveu de memória. É bem verdade que a memória se atenua, tende a ignorar o que não é agradável, a memória é como um pintor impressionista, ela mitiga a dura realidade tornando-a mais aceitável. Pelo mesmo motivo, no entanto, os eventos vistos à distância no tempo são vistos com menos emoção, colocados nos seus devidos lugares, muito frequentemente com maior compreensão. Escrita de memória é destituída de emoções fortes e não razoáveis. O escritor nessa altura está desligado e pode ser um historiador mais objetivo e talvez mais exato. Eu realço este ponto porque me foi sugerido que a minha escrita podia ser nebulosa e imprecisa. À medida que olho para trás vejo uma história, uma aventura, a história de acontecimentos que é chamada a minha vida e, à medida que olho para trás nela, vejo-a com maior clareza, não de uma maneira enevoada ou imprecisa, mas exatamente o contrário, eu vejo-a agora com os olhos completamente abertos, vejo-a com mais tolerância para as dificuldades, maior compreensão para os motivos subjacentes. Todos nós temos histórias das nossas vidas e apenas porque a minha história envolve uma pessoa notável torna-se de interesse e valor para outros. E porque há tanto relativo a esta pessoa notável – Lobsang Rampa – que foi deturpado, é vital que eu dê um registo verdadeiro e honesto, mesmo que possa despedaçar as noções idealísticas de uns e o julgamento desinformado de outros.

Outro dos meus leitores e amigos notou há pouco tempo que devia ter sido difícil apreciar o Dr. Rampa quando uma pessoa lhe era tão chegada e vê-lo à distância seria muito mais adequado. Este amigo está absolutamente certo, era difícil apreciá-lo completamente nesse tempo porque teria criado uma barreira e não permitiria uma vida familiar normal como a que vivemos. Mas a esta distância temporal, tantos anos depois, posso ver com elevada sensibilidade e compreensão quão pesada devia ter sido a sua vida, como ele sofreu silenciosamente, como pouco podia explicar, mesmo para nós a quem ele considerava como a sua família.

Deve ter sido em 1956 que eu fui viver com os Rampas. Posso dizer isso porque foi na altura em que “A Terceira Visão” foi publicada. A nossa partilha de domicílio não foi pensada como um acordo permanente, foi mais para me permitir estabilizar numa nova vida, começar de novo depois de um casamento desfeito. Na altura a abrangência da assistência de Chen, embora apreciada, foi considerada garantida e é apenas agora, vista a uma distância de cinquenta anos, que a sua enormidade se torna aparente. A razão por que não era tão clara quando vista na altura e a razão por que era tão fácil de aceitar, era a sua maneira de dar. Essa era a beleza dela – e a raridade. O que ele fez por mim e por outras pessoas como eu que se encontraram em situações aparentemente impossíveis, não foi um acto de caridade, nem algo que uma pessoa precisasse ou que fosse expectável que ficasse grato, nem uma gentileza no sentido comum do termo. Era um acto de amor e o amor não exige retorno. Não era piedade porque as gentilezas prestadas como resultado de piedade é humilhante para quem a recebe, e é seguro dizer que ninguém foi reduzido a esse nível por ele. Ele dava com graça, livre e alegremente, uma maravilhosa e aberta dádiva dele próprio. E por isso esse aceitar tornou-se na coisa mais natural do mundo, a mais fácil e a mais alegre.

Ocorreu-me agora que ele provavelmente viu pouca ou nenhuma diferença entre mim e as duas mulheres previamente mencionadas. Nós eramos todos seres humanos que se estavam debatendo, atolados no pântano da vida, incapazes de nos elevarmos como uma gaivota que se debate, com as suas belas asas cobertas de alcatrão e petróleo derramado dos barcos, incapaz de voar e condenada a uma morte certa. Mas a nossa semelhança, nós as três mulheres, não foi então aparente para mim. Os meus padrões eram tão artificiais e questionáveis com um produto fabricado, tendo pouca relação com a realidade das leis da natureza, padrões manufaturados pelo homem – pior, manufaturados por um grupo pequeno e selecionado. Eu via-me como muito superior às outras duas mulheres. Era assim como eu via as coisas, se alguma vez pensei de todo sobre o caso e, provavelmente, nunca pensei sobre isso porque era simplesmente um facto adquirido – para mim era! Apenas posso assumir que foi um golpe de sorte, ou possivelmente uma maior necessidade da minha parte que da deles, que me permitiu avançar. Eu permaneci com os Rampas, tornando-me um membro da sua família e lar, durante vinte e cinco anos.

Mas estamos falando sobre dar, não estamos? Sobre a graça de dar, sobre o mundo de Rampa. E o género de dar do qual estou a falar não é do tipo material, embora tenha sido também muito desse tipo. Do que estou a falar agora é a real abertura, sair para encontrar a outra pessoa numa base igual, sem egoísmo, num modo de dar edificante. Uma coisa é ver um pobre desgraçado numa esquina da rua e atirar-lhe a ele ou a ela uma moeda, mesmo um casaco ou um par de luvas: nós pensamos que não agimos muito mal, que mostrámos consideração, podemos dar uma palmadinha nas nossas costas e caminhar complacentemente felizes. Mas é outra coisa aproximarmo-nos do pedinte, envolvermo-nos, sentar no mesmo lugar do passeio, gastar tempo a andar pela estrada até um café e comer juntos. E depois voltar no dia seguinte, e no próximo, até que a confiança seja estabelecida. Esse é o tipo de dar a que me refiro, esse é o mundo de Rampa, esse era o tipo de coisas que ele fazia porque estava livre de preconceitos e de valores falsos. Quantos de nós, não obstante, eramos capazes de fazer isso, mesmo que quiséssemos? A maioria de nós está sobrecarregada com o peso dos hábitos, respeitabilidade, mantendo intacto e sem a mácula dos necessitados o nosso pequeno lugar no mundo, o lugar que, talvez, lutámos tão fortemente para alcançar, a ténue posse que temos das ”coisas boas”. Há sempre o pensamento horrível de que se nos baixarmos ao nível de um pedinte nunca seremos capazes de nos levantarmos outra vez para aquele estatuto artificial que criámos para nós e podemos ficar para sempre manchados aos olhos do mundo.

Lobsang Rampa compreendeu muito bem esse sentido de contenção que inibe muitos de nós de dar verdadeiramente, esse medo de perdermos algo nosso ao se agir assim. Ele entendia isso como uma barreira quase inultrapassável de fazer um progresso real no sentido espiritual, e ele lamentava-o. Penso talvez que essa era parte do seu plano – dar-se constantemente livre e abertamente, esperando que isso se tornasse um exemplo, que isso passasse adiante, e adiante, uma e outra vez. É um facto que depois de viver com ele por um tempo e experimentar a sua sinceridade e humanidade, uma pessoa era capaz de ser mais aberta, mais dada e, por consequência, mais contente e menos receosa.

Estávamos a viver em Londres quando “A Terceira Visão” surgiu e deve ter sido um marco para os Rampas porque as suas vidas foram alteradas de muitas formas com a publicação do livro. Houve então a possibilidade de continuar com o trabalho sobre a aura que era a missão da sua vida, haveria dinheiro para comprar câmaras fotográficas, filme, todas as coisas que precisava para o seu trabalho de pesquisa sobre a aura humana. Nós alugámos um apartamento decentemente mobilado por poucos meses e não tínhamos fome nem frio, como eles devem ter tido anteriormente. Ainda assim, apesar das preocupações que certamente tinha e do trabalho extra relacionado com a publicação, ele concentrou uma quantidade tremenda de tempo e energia em cuidar de mim. Como disse, considerei isso como um facto adquirido, facilmente, e era assim como ele queria que fosse. Mas sem o cuidado constante, as caminhadas e conversas diárias, a amizade e a conversação, eu cairia num profundo lamaçal de depressão. Sei isso agora como uma certeza. E uma depressão profunda pode tornar-se um caso de toda uma vida, talvez controlada por medicamentos e terapias mas, no entanto, um dano permanente do cérebro e alteração da química do corpo.

Eu não sofri de nenhuma dessas doenças, emergi tão sã como a maioria das pessoas, mais equilibrada e a funcionar melhor do que alguma vez tinha sido capaz.

Nas nossas frequentes saídas juntos eu vi partes de Londres que nunca tinha visto antes, embora tenha vivido na cidade desde a minha adolescência. Apanhámos autocarros e caminhámos e nos autocarros sentávamo-nos no piso de cima, ao fundo se possível pois era aí que ele gostava de estar. Ele gostava de observar as diferentes pessoas que subiam e emergiam ao cimo das escadas, primeiro a cabeça depois o corpo, segurando-se assim que o autocarro cambaleava no seu caminho. Uma vez uma criança pequena foi carregada pelas escadas acima, um trabalho difícil conhecido por qualquer que saiba como se conduz um autocarro em Londres, uma criança que era aleijada e torcida. Eu tinha crianças minhas e quando olhei para ela o meu coração brotou para essa pequena criança deficiente. Que tipo de vida está destinada para ele? Parecia terrivelmente injusto começar uma vida como aleijado.

“Eu vejo que você tem pena dele, Sheelagh.”, disse Chen.

“Como sabe que tenho pena dele?” Eu estava estupefacta. Não tinha dito nada.

“As suas cores. As suas cores mostram o que sente.” Ele estava falando sobre as cores da minha aura. Essas cores sempre a mudar que rodopiam à nossa volta e podem indicar emoções para um psíquico que as possa perceber. “Mas deve lembrar-se que a criança escolheu provavelmente a sua incapacidade por alguma razão específica, para alguma coisa que ele queria aprender na vida.”.

“Então não é suposto termos pena?” observei, enquanto o pai se sentava perto da frente do autocarro, colocando o rapaz ao seu colo.

“Pena? Pena não é uma coisa boa, é humilhante. Automaticamente a maioria das pessoas sentem tristeza quando confrontadas com o sofrimento e talvez queiram ajudar. Mas não deve nunca ajudar a não ser quando solicitado, porque será uma interferência no caminho escolhido de outra pessoa e talvez impeça terem a oportunidade de aprenderem o que eles decidiram aprender nesta vida em particular.“ Eu vi que ele estava na disposição de falar. Íamos para Richmond por isso tínhamos tempo suficiente.

“De acordo com a minha crença,” continuou, “nós decidimos no astral, antes de nascermos para cada vida, o que precisamos de aprender na vida sobre os assuntos. Se os obstáculos que escolheu se revelam piores do que tinha antecipado – e geralmente são –, você está-se debatendo mas ainda assim de certa forma gerindo e alguém aparece e diz: “Oh, é muito difícil para si. Eu ficarei com alguma da sua carga.”, isso não é de todo uma boa ação, é uma humilhação, realmente, mais do que uma ajuda. Está completamente a transtornar o seu plano das lições que quer aprender. Mas suponha que você aceita a ajuda não solicitada, de qualquer forma, a oferta pode parecer demasiado boa para recusar e você não vê qualquer razão para continuar a debater-se porque, lembre-se, você não conhece conscientemente o seu plano, não sabe conscientemente que planeou esses obstáculos. Se puder fazer viagem astral, se você for psíquico e puder ver para além do nosso mundo tridimensional, você saberá, mas estamos a assumir que não é psíquico e não viaja conscientemente no astral. Por isso toma o caminho mais fácil.

“De alguma forma, então, a vida torna-se sem sentido, sente-se frustrado mas você não sabe porquê. Você vive o seu tempo de vida atribuído e o fim chega, você morre e o Cordão de Prata é partido, retorna para o astral, deixando o corpo terreno para trás, tal como um conjunto velho de roupa. Então, já no astral onde pode ver as coisas claramente, vê que a sua vida foi desperdiçada, toma consciência que terá de voltar à Terra para tentar aprender as mesmas lições outra vez. Você tem de começar de novo com os mesmos obstáculos, por isso, efectivamente, viveu uma vida desperdiçada por ter aceitado uma ajuda não solicitada mas que lhe foi sugerida”. …

“Sim, já falámos anteriormente um pouco sobre isso.” Era um assunto que obviamente ele sentia ser importante que eu compreendesse, uma pedra angular na qual muitas facetas do conhecimento oculto assentam. “Eu compreendo o que diz, mas Chen, é realmente bastante difícil, sabe, entrar nessas coisas, são tão diferentes do pensamento ocidental normal embora, no entanto, devo admitir que isso responde a vagas perguntas e preocupações da minha mente. “ Fiquei silenciosa por um minuto ou dois. O autocarro parou e arrancou outra vez. Eu estava ainda a pensar sobre a criança e a importância de não interferir com as pessoas a não ser que o solicitem.

“Mas não é uma reação natural de qualquer um com um mínimo de boas maneiras de, por exemplo, se levantar e dar o seu lugar a uma pessoa deficiente, ou segurar a porta aberta para ele? Não há certamente nada de errado com isso.”

“Não, claro que não. Estou a referir-me sobre ajudar de um modo diferente, não apenas, como corretamente diz, mostrar consideração pelos outros. Contudo, ao mesmo tempo deve lembrar-se que há muitas pessoas incapacitadas ou idosas com uma espécie de falso orgulho que podem responder-lhe se lhes mostrar a mais pequena consideração.

Você sabe, uma espécie de atitude tipo ‘Eu posso fazer isso sozinho’, mas esse é o seu azedume e falta de compreensão da sua incapacidade. Isso não deve desanimá-la nem dissuadi-la, pois há ainda muitos que são gratos.”

Eu podia ver que este negócio de ajudar os outros não era fácil. E se eles quisessem ajuda mas fossem muito tímidos para pedir? E se eles não soubessem como pedir? E outra vez, você pura e simplesmente não pode sair e ajudar pessoas como um benfeitor que é em regra um estorvo. Eu pensava que ter a oportunidade de ajudar uma pessoa era realmente um privilégio, por isso quando essa oportunidade chega você agarrava-a alegremente porque outra oportunidade pode demorar a chegar.

Foram vários os temas de que falámos nessa altura. De alguma forma havia então mais tempo para debates. Mais tarde, à medida que ele se tornou bem conhecido e era constantemente bombardeado com cartas e perguntas, tornou-se mais difícil falar em casa sobre as minhas próprias perguntas e teorias. A aprendizagem então era através das respostas aos outros. Esses primeiros meses foram o início real da minha consciência de assuntos para além dos mundanos e o facto de que ele escolheu iniciar-me antes do meu velho mundo ter colapsado irrevogavelmente, em que ele encontrou então tempo para concentrar tanta energia na minha educação, foi o que me salvou.

Tenho tanta coisa para pensar. Fiquei capaz de ver as situações mais em perspectiva, de separar os temas. A maneira de como ele passava o seu conhecimento agora quando estávamos a viver juntos era de modo mais sério e condensado do que quando nos encontrávamos ocasionalmente. A melhor coisa foi que a minha mente estava tão constantemente ocupada durante esses primeiros dias que não havia tempo para lastimar, nenhum tempo para me arrepender de coisas deixadas para trás, a minha mente estava tão focada no futuro e em coisas maiores que eu própria. Como vejo agora, foi um bom sistema de pensamento da parte dele de me trazer através de um, se não fosse isso, período desastroso da minha vida. Se alguém está deprimido ou desesperado ou de luto, é fatal centrar-se em si mesmo e fazer autoanálise. É apenas pelo afastar-se de si mesmo que a cura pode ser estabelecida e realizada.

Fazendo uma pequena digressão, tenho um amigo que, de boa-fé, avisou-me quando eu estava a escrever sobre o Dr. Rampa que eu precisava de dizer ao leitor todas as coisas negativas sobre ele e sobre a minha vida com ele. De acordo com o meu amigo – e estou certa de que há uma grande dose de verdade nisso – ninguém gosta de ler todas as coisas boas, torna-se maçador e até suspeito. O que o leitor anseia é sensação, o escuro, verdades escondidas e todos, pelo que o meu amigo me contou, têm um lado mau que deve ser exposto com toda a honestidade, pois será o que tornará o meu livro interessante, será o que o venderá, o lado negro que ninguém conhece senão eu. Mas, embora conheça muito bem o que o aviso significava, há muito pouco que posso encontrar para dizer e que seja tão sedutor para tornar o meu livro realmente interessante! São abundantes os mitos que têm circulado sobre Lobsang Rampa, cheios de críticas ásperas, mas com muitos poucos factos simplesmente porque dificilmente alguém o conhecia. Como qualquer pessoa notável e brilhante, com uma complexa caracterização, ele tinha muitas facetas da sua natureza e não era sempre fácil compreendê-lo. Ele próprio reconhecia que era diferente das outras pessoas e fazia um esforço para ser afável e de bom trato. Ele necessitava de muito tempo sozinho pois era durante esse tempo que era capaz de estabilizar e renovar as energias.

Algumas pessoas, talvez a maioria, que estão sob o olhar público fazem questão de nunca ler revistas e artigos escritos sobre eles, quer sejam bons ou maus, e nós não eramos excepção a essa regra, por isso foi só muito recentemente que me tornei conhecedora de algumas coisas extraordinárias atribuídas a Chen, de facto a nós os três, que eram tão distantes da realidade que eram ridículas. Coisas insinuadas como tendo sido feitas e ditas por ele, orgias lúgubres realizadas na nossa casa e outras coisas, descrições da sua personalidade que não tinham nada em comum com a realidade. Ele era descrito nas capas de livros como um místico e isso reconhecidamente deu origem a todo tipo de interpretações. Ainda assim, a impressão falsa pode ter sido parcialmente obra dele. Deixem-me explicar o que quero dizer:

Há fotografias dele e desenhos feitos a partir dessas fotografias que o retratam como ameaçador ou esquisito. Ele tinha o hábito, quando posava com objetivos publicitários e parecidos, de adoptar uma expressão austera e ameaçadora, bastante diferente da sua habitual expressão gentil. Tanto quanto sabemos e por algum motivo dele próprio, talvez como uma espécie de defesa, ele pode ter desejado que a sua persona pública o mostrasse dessa maneira, embora austero seja uma coisa e ameaçador é outra que, tenho a certeza, ele não queria transmitir e essa era muito distante do comportamento dele na sua vida privada. Podia ser firme e até assustador se a ocasião o justificasse, mas esse não era o seu normal comportamento diário. É mais do que possível, então, que alguns desses relatos extraordinários sobre ele derivem dessas fotografias iniciais. Como todos sabemos, as capas dos livros são o sensacionalismo no seu extremo, mas ele não tinha controlo sobre elas. Nunca viu uma capa antes da publicação, nunca foi consultado sobre as sinopses que aparecem nas capas e contracapas, mas os editores eram obviamente da mesma opinião como o meu amigo bem-intencionado – o público gosta da sensação e quanto mais sensacionalista melhor.

Outro aspecto do mesmo assunto, uma impressão falsa e enganadora, era a sua voz. Em geral a voz da fala humana é um bom indicador da personalidade e carácter. Se ouvir a voz antes de encontrar a pessoa, pode fazer uma avaliação muito precisa com quem irá ser confrontado quando o encontro finalmente se materializar. No caso dele, como sabemos, a sua boca e maxila foram muito severa e brutalmente danificadas pelas botas dos Japoneses nos campos de concentração da II Guerra, dito de outro modo, por pontapés selvagens e sempre senti que as suas cordas vocais também tinham sido devastadas ou alteradas através da crueldade, que ele tinha sido também pontapeado à volta do pescoço, porque à sua voz faltava a ressonância e profundidade que eu sentia que ele tinha possuído originalmente. Ele falava calmamente, o que certamente seria o seu modo natural, mas a sua voz era “fina” o que era completamente não natural para a sua personalidade. Quando ele falava ou fazia gravações para pessoas fora da sua família, fazia um esforço consciente para controlar a sua voz e dar-lhe a força e profundidade que agora faltava e, para um ouvinte com perceção, devia ter sido aparente que ele estava a fazer um esforço. A sua voz saía pobre e soava forçada e o ouvinte podia com razão perguntar porquê. Tendo consciência que ele não possuía já a habilidade de falar que tinha antes da tortura, esforçou-se ao máximo para recrear a sua voz, mas ao fazê-lo, em vez disso, criou a sensação enganadora de alguém que estava a tentar causar uma impressão falsa.

Como digo, foi apenas recentemente que me tornei conhecedora de algumas notícias sem sentido que circulavam sobre ele. Por exemplo, foi reportado que Lobsang Rampa era egocêntrico, dominador, despropositado e teimoso, possuidor de um mau temperamento e que fazia sessões espíritas. Acho difícil reconhecer esta pessoa, por isso vamos ver as acusações e considerá-las à luz de terem sido atribuídas a um homem conhecido pela sua gentileza e amor ao próximo. Estou bem ciente que já referi em mais do que uma ocasião que QUEM Lobsang Rampa era, não interessa, mas interessa sim o que ele ensinou e eu adiro a essa premissa. Ao mesmo tempo, tenho sido solicitada para escrever sobre a sua bondade, por isso é importante que uma pessoa obtenha um retrato exato, ou o mais exato possível, de como ele era na vida privada.

Egocêntrico: o cunho de um egocêntrico é o seu uso frequente das palavras “eu” ou “meu/minha” numa conversação, uma aparente falta de habilidade para perceber que o resto do mundo não está interessado na sua conversa sem fim sobre as suas próprias façanhas e espertezas com as quais eles dominam qualquer troca social e a sua visão míope do mundo vista através de um par de olhos apenas – os seus. Uma pessoa como Lobsang Rampa, cuja vida foi dedicada ao ensino e ao relacionamento com outros, nunca poderá ser logicamente acusado de ser egocêntrico. Ele falava dele muito raramente e uma pessoa podia até ter o sentimento que ele não tinha nenhum interesse na sua própria vida. Ele escreveu sobre isso, mas se não tivesse escrito nos seus livros duvido que teria conhecido tanto sobre a sua vida inicial. Era um homem do presente e do futuro, não do passado. O seu interesse assentava nos outros e no bem-estar universal. Nas raras ocasiões em que recordava alguma coisa do seu passado, nós ficávamos atentos – era tão raro que valia a pena ouvir. Parte do seu sucesso era que ele realmente vivia no presente e não tinha anseios por coisas passadas, era como se uma cortina descesse sobre o passado, não tinha significado presente, tinha passado, ponto final. O passado é de onde tu aprendeste e o que fez o presente. Hoje é o que faz o futuro.

O leitor pode argumentar que os seus livros são todos sobre o seu passado e isso é absolutamente verdade, mas isso era isolado da sua vida do momento. Ele não “vivia” a sua escrita – era o seu trabalho.

É uma realidade que ele acreditava firmemente na autoestima, no autoconhecimento, na autoconfiança e era um bom exemplo de alguém possuidor dessas características que brotavam da crença que o primeiro dever de cada um é com ele próprio. Nessa crença, cada um de nós tem uma razão de viver e é importante cuidar de si física, mental e espiritualmente com vista a completar o seu destino. Se você se permite ser, por exemplo, dependente de drogas ou álcool, você está colocando a sua saúde física, mental e espiritual em cheque e não conseguirá por qualquer esforço de imaginação fazer um trabalho decente no mundo, apenas pode ser uma influência negativa. Por isso é seu dever moral cuidar de si. Mas será egoísmo ter autoestima, autoconhecimento e autoconfiança? Penso que não.

Dominador: Bem, ele “conduzia o barco” em casa, com efeito, mas isso parecia um estado de coisas óbvio. Alguns de nós somos seguidores, outros líderes. Ser um seguidor não significa que você é fraco e ser um líder não significa necessariamente que você é dominador, mesmo que seja a parte dominante do conjunto, aquele que toma as decisões e conduz pelo caminho. Chen obviamente era o dominante na família, tudo girava em volta dele e do seu trabalho porque nós todos conhecíamos o que era o mais importante, mas ele não era dominador no sentido em que ele decidia a vida a seu modo sem consideração pelos outros, fazendo nós o que ele queria. Pelo contrário, ele cuidava constantemente do bem-estar das outras pessoas, fossem da família, amigos ou desconhecidos e temperava frequentemente a sua própria opinião em favor dos outros.

Despropositado e teimoso: A maioria das crianças atribui estas censuras aos seus pais em alguma altura das suas vidas. Para alguém com a estatura de Lobsang Rampa nós devíamos ser todos como crianças e frequentemente malcriados. Se você quer desesperadamente fazer algo que não é bom para si e alguém diz que não deve fazê-lo, você vê essa pessoa como despropositada e teimosa. Se você se vir como um adulto com experiência, mesmo que eventualmente não a tenha, e se lhe disserem que isto e aquilo não é realmente uma boa ideia, você exalta-se e essa é uma reação natural, e porque não tem qualquer intenção de admitir que pode não ser tão experiente como pensava que era, você vira-se e diz “Ele não é razoável e, pior – ele é teimoso.”

Mau temperamento: Ele tinha um temperamento rápido e podia ser um estorvo muito eficaz para aquele que o provocasse, mas ele saltava por cima do seu génio rapidamente e não guardava rancor no sentido comum do termo. Ele podia ser, e era de vez em quando, implacável no sentido em que se uma pessoa o molestasse suficientemente ele eliminava-o completamente, limpava-o das páginas da sua vida que tinha anteriormente ocupado. Isso, na verdade, era benéfico e saudável no sentido em que ele nunca mais tinha de se preocupar com os danos que lhe tinham feito ou com o desgosto que lhe tinham causado. Simplesmente cessava de pensar sobre essa pessoa, como se ela nunca tivesse existido. Era capaz de perdoar, mas se fosse para além do que considerava que podia perdoar, então colocava um ponto final, eles eram esquecidos completamente e para sempre. Isso era uma espécie de limpeza e certamente tornava o guardar rancor, que tem uma ação corrosiva e negativa no corpo e no espírito, uma impossibilidade.

Falando genericamente uma pessoa que é classificada como mau temperamento é de uma natureza irascível e é difícil de aturar a maior parte do tempo, nunca deixando realmente o mau temperamento afastar-se. Chen, pelo contrário, em regra era amigável, com boa disposição e muito humor. Podia frequentemente ouvi-lo tocar o seu realejo, rindo baixinho de alguma coisa que achasse divertido num livro, cantando para os seus gatos. Ele criava piadas quando falava com as pessoas. Os estranhos não sabiam muito bem como reagir, estavam confusos. Eles esperavam uma pessoa devota, erudita, sisuda, como podia ser tão humano e engraçado? Mas ele era assim e esses traços encantaram os poucos suficientemente afortunados que o conheceram pessoalmente.

Sessões espíritas: Nunca! Ele não tinha qualquer tempo para o espiritismo. Ele nunca participou em qualquer espécie de encontros ou reuniões ou sessões de oração, nunca meditou em companhia. Ele acreditava fortemente no crescimento pessoal, nunca em grupos. Ele não tinha necessidade da espécie de encontros que são particularmente populares na América do Norte e que frequentemente roçam o cultismo. A sua recusa firme em juntar-se com grupos enfureceu alguns que gostariam de o ver como o seu representante e levaram a que fosse o bombo da hostilidade deles, resultando numa crítica que era tão infundada quanto ignorante. Mas, como sempre, ele manteve a sua posição, nunca vacilando do que ele acreditava ser certo.

Pouco tempo depois de “A Terceira Visão” ser publicada nós desenraizámo-nos e fizemos a primeira de muitas mudanças. Alugámos um apartamento em Dublin e, a partir dali, uma casa numa pequena localidade na costa da Irlanda, não muito longe de Dublin, chamada Howth. Aqueles que estão familiarizados com os livros do Dr. Rampa já conhecem alguma coisa sobre a nossa vida ali e sobre os amigos que fez entre a população local dessa vila piscatória.

Ben Edair era uma pequena casa feita de pedra sobranceira ao mar, que parecia estar pendurada na beira da falésia, sem pretensões, não propriamente feia nem particularmente bonita. A entrada da casa era numa extremidade e não no meio como é vulgar, uma pessoa entrava diretamente da estrada, sem passeio ou caminho, apenas uns poucos passos desde a estrada até à porta da frente.

Uma vez dentro, percebe que está no piso superior da casa com um vestíbulo, ou corredor, que se estende ao longo do comprimento da casa. Havia dois quartos, ou talvez três, na parte da casa do lado da estrada e, do lado do mar, havia uma pequena sala onde estava permanentemente montado um telescópio e onde uns binóculos e o equipamento fotográfico eram guardados. Para além dessa sala havia um outro quarto grande, o quarto principal da casa, com uma janela de sacada abrindo-se sobre o mar aberto com uma vista magnífica e imponente, uma imensa vastidão de mar e céu, com um grande rochedo em primeiro plano, quase uma ilha, chamada o Olho da Irlanda. Esse rochedo ficava bastante perto, podíamos remar até lá e desembarcar muito facilmente demorando cerca de dez minutos mais ou menos, o que fizemos com frequência.

Esse quarto, com suficiente naturalidade, era o quarto de Chen. A sua cama estava colocada na janela de sacada e a posição era ideal para ele.

Que a janela não encaixasse na moldura e que o vento ululasse através dos painéis mal ajustados durante o tempo tempestuoso não era um problema de maior. Ele era duro como pregos no relativo a frio ou mau tempo de qualquer espécie, simplesmente o enfrentava naturalmente, sem necessidade aparente de roupa extra. Era como se ele não sentisse frio, como se não tivesse consciência dele. Posso vê-lo com a visão da minha mente sentado na cama com um fino pijama de algodão apreciando uma tempestade, observando os flashes dos relâmpagos enquanto o vento soprava e as ondas rugiam, quebrando e retraindo-se nos seixos da praia em baixo, enquanto Ra’ab e eu nos embrulhávamos em camisolas de lã, meias grossas e ainda assim tiritando de frio.

Nessa costa havia uma variedade de condições atmosféricas variando desde um nevoeiro denso e saturado, relâmpagos, tempestades e fortes vendavais, até mares serenos e céus idílicos. Estava sempre a mudar, nunca era enfadonho. Posso ir tão longe como dizer que ele amava o local. Depois do turbilhão da vida numa grande metrópole e das perturbações e mesquinhez que encontrou, aqui, por contraste, nós estávamos tão bem alinhados com a natureza e com as forças naturais onde não havia subterfúgios, mal entendidos, nada falso, era como a luz depois da escuridão, a calma depois da tempestade. Ele experimentou uma sensação de paz e harmonia em Howth, empoleirado sobre o mar naquela pequena casa, que nunca encontrou depois durante todo o tempo em que o conhecemos.

O piso por baixo era acedido por uma escada na extremidade do corredor. A escada dava meia volta para baixo e, na curva, havia uma casa de banho que sem dúvida tinha sido acrescentada depois da casa original ter sido construída. Este piso inferior tinha três quartos pequenos, na realidade quartos na semicave pois estavam abaixo do nível da estrada e eram na verdade muito húmidos. O meu quarto era perto do fim das escadas num dos lados da casa e era necessário manter o fogo aceso na braseira durante o inverno para combater a humidade que subia visivelmente pelas paredes.

Eu gostava do fogo, adorava ir dormir observando o brilho e as figuras no tecto criadas por uma labareda ocasional. Era civilizado e evocava a minha infância, confortando e aquecendo o coração, assim como o corpo.

No piso inferior virado para o mar havia uma cozinha muito grande com um pavimento ornamentado com desenhos e tinha uma grande janela, o que dava a impressão de estarmos quase no exterior. Esta cozinha foi planeada, claramente, para fazer refeições assim como para cozinhar porque havia espaço para uma boa mesa onde podiam sentar-se facilmente oito pessoas à sua volta. A disposição original dos móveis de cozinha ainda se mantinha – uma grande lareira e dois fornos, um gancho por cima do fogo para colocar uma caldeira para ferver água – mas havia também um fogão a gás, mais moderno e bastante feio, que usávamos por ser prático. Um acidentado trilho que passava debaixo da janela descia até à praia de seixos em baixo, onde guardávamos um pequeno e sombrio pontão.

A casa era vulgar excepto pela sua localização quase única e poucas pessoas a teriam achado conveniente. No que respeita a mobília e a embelezamentos nós tínhamos o mínimo, o que estava em linha com o modo de vida dos Rampas. O que tínhamos era simples e prático. Esse foi um período de estabilidade financeira mas não alterou nada no seu modo de vida excepto que o medo da pobreza foi erradicado, era possível comprar equipamento necessário para o seu trabalho e, quando um individuo com necessidades cruzava a sua vida, Chen era capaz de o ajudar no sentido material.

Do punhado de pessoas das quais nos tornámos amigas, aquele que recordo com mais afeição era o polícia local, ou Guarda.

Eu tinha a minha máquina de escrever montada debaixo da janela no meu quarto, a janela do lado da casa, e dali podia ver qualquer pessoa que parasse e espreitasse por cima da parede de pedra que protegia a casa e a envolvente (hesitei em usar a palavra “jardim” porque era um terreno inculto e acidentado) da estrada. Por uma ou duas vezes tinha reparado no Guarda parado ali ao pé da parede e presumi que ele estava no seu giro diário e tinha feito uma pausa para espreitar o mar. Na terceira ocasião prestei-lhe mais atenção. O seu olhar não se dirigia de modo nenhum para o mar, parecia estar a olhar para alguma coisa debaixo da minha janela, ou muito perto, com um interesse intenso. Deixei a minha máquina de escrever e subi as escadas.

“Chen, o Guarda está parado ao pé da parede a olhar para alguma coisa debaixo da minha parede. Pensa que eu deva ir e ver o que é?”, perguntei.

Ele estava a ler, mas pousou o seu livro e balançou as suas pernas para fora da cama. “Eu irei.”, disse, escorregando os seus pés para dentro dos sapatos e encolhendo os ombros no seu casaco preto. “Nunca se sabe com polícias, mesmo os Irlandeses.”

Esse foi o início da nossa amizade com Pat. O que ele tinha estado a mirar com tanto interesse era uma velha pia de pedra meio enterrada debaixo do cascalho e claramente atirada fora e esquecida. Ele queria encarecidamente essa pia – mas ousava perguntar por isso? Bem, ele pediu e, claro, obteve-a e a sua gratidão não conheceu limites, apesar de por direito a pia não nos pertencesse mas sim ao nosso senhorio.

Pat era alto, um individuo bem constituído, bom para o seu trabalho porque era mais alto que o resto da comunidade. Ao mesmo tempo, estava consciente de poder falhar e permanecia ligeiramente afastado dos outros, como a sua posição impunha. Ele tinha adoptado uma expressão facial adequada para o trabalho, duro e algo feroz, mas como nós sabíamos e possivelmente todos, era mais do que uma leve fachada e de facto escondia um coração mole, modesto e um homem genuíno. Era uma visita frequente da casa e vinha conversar com Chen. Não era preciso fazer um grande esforço de imaginação para ver estas conversas como estando na linha do dever, isso era assim porque as suas conversações abrangiam um grande número de assuntos, que só podiam ter aberto os seus olhos e ser uma assistência na avaliação e descoberta de pequenos crimes. Os dois juntos teriam representado um sério impedimento para qualquer possível delinquente, não obstante ser raro qualquer crime nessa vila e nos bairros vizinhos. A maior parte do trabalho de Pat consistia em assistir pessoas em dificuldades, harmonizar argumentos, apanhar os bêbados caídos nas valetas e levá-los a casa antes que o pior lhes pudesse suceder. Na sua juventude lutou com os Irlandeses contra os Ingleses e adorava contar-nos como eles, um punhado de Irlandeses galantes, conservaram o posto dos Correios de Dublin contra probabilidades esmagadoras -as probabilidades eram as bestas Inglesas embora nunca o tenha posto realmente em palavras. O facto de que Ra’ab e eu eramos o inimigo nunca cruzou aparentemente o seu pensamento. Os Irlandeses, como uma nação, nasceram cheios de tacto, beijaram a Blarney Stone aos milhares – mas ele parecia genuíno pois não mostrava a mais leve aversão e nunca foi outra coisa para além de cortês e amigável para nós as duas.

Como era comum na Irlanda, ele referia-se a Chen como Himself (Ele Próprio) e Ra’ab era Herself (Ela Própria). Nós eramos, claro, pagãos para ele assim como para quase todos da vila e é provável que confessasse fielmente todas as semanas ao padre detrás da rede que a sua maior transgressão fosse a sua associação connosco. Presumivelmente era sempre perdoado porque se tornou o melhor dos amigos, um recipiente de um carinho e atenção únicos que o elevaram do terreno diário, que lhe deram um brilho e essa era a parte da graça que Lobsang Rampa outorgava sobre aqueles que entravam na sua órbita.

Depois havia Edgar. Edgar era o homem do barco, ou um deles. Era rijo, usado e enrugado, seco pelo vento e pelo sol, mais envelhecido para além da sua idade e com um hábito de coçar constantemente as suas calças surradas que cheiravam a peixe e água salgada. Ele partilhava o seu barco com o seu irmão que nem de perto era tão pitoresco; na realidade nem sequer consigo lembrar o seu nome. Eles levavam as pessoas a passear no seu barco durante o verão e, se no inverno houvesse alguém interessado, estou certa que estariam disponíveis para fazer viagens durante todo o ano. Era um simples barco de madeira com um motor fora de borda que geralmente arrancava à primeira tentativa, mas outras vezes não, e levava sentadas talvez seis ou oito pessoas no máximo. Nos meses de verão podia vê-lo navegando perto do porto e a pouca distância costa acima, tendo a bordo um ou dois valentes ou imprudentes turistas. Durante o inverno os irmãos faziam muito pouco. Podíamos vê-los aos dois sentados em algum lugar, com o barco puxado para cima de terra, perto deles enquanto consertavam as redes de pesca e tagarelavam com toda e qualquer pessoa que quisesse ouvir. Muito frequentemente alugávamos o seu barco conjuntamente com Edgar para nos levar por algumas horas, tanto quanto podíamos, mas era apenas uma gota no oceano de pobreza. Suspeito, a julgar pelo toque excessivo no seu boné antigo e engordurado, que Chen escorregava algumas notas extra naquelas mãos calosas, sempre esperançosas e necessitadas quando nos acontecia vê-lo.

Edgar era o pai de uma horda de filhos, mas o mais velho quase de certeza não lhe devia a paternidade e não poderia ser considerado calunioso dizer que o pai dessa criança tinha sido um Irmão Católico que abençoou a pobre Sra. Edgar com a sua progenitura. Era considerado uma honra e o homem que a desposasse para fazer dela uma mulher honesta a seguir à gravidez devia, uma pessoa apenas pode acreditar e esperar, ter sido também abençoado, de algum modo semelhante a fazer uma boa ação para o Senhor. Pobre velhote Edgar, devia ser a única bênção que ele alguma vez teria recebido.

Claramente nesse tempo não havia feministas em Howth ou alguém que pertencesse à classe operária Irlandesa. A família que sucedeu ao casamento era, claro, desesperadamente pobre e alimentar e cuidar de todos os filhos que chegavam em sucessão rápida um após o outro deve ter sido um pesadelo horrível e macabro.

Uma vez fui enviada à casa da família de Edgar. Os detalhes da visita não são importantes, nem as razões pelas quais fui, que em todo o caso escapam à minha memória, mas o que lembro com uma clareza surpreendente e impressionante era o estado em que viviam. A casa no campo não era mais do que uma cabana, havia um cheiro pungente e chocante de fraldas molhadas que impregnava tudo, havia bebés e crianças de várias estados e idades correndo seminus entre algumas galinhas magricelas que esgravatavam na sujidade exterior, com um mal-encarado gato de um só olho, empoleirado numa árvore apodrecida vigiando todos eles. O filho mais velho, também ironicamente chamado Edgar, permanecia afastado de tudo isto, com aspecto calmo e sério, até as suas roupas e semblante pareciam mais limpos que os restantes. A mãe, com rugas na face próprias de alguém que tivesse o dobro da sua idade, tinha cabelo comprido e despenteado com estrias de cabelos brancos prematuros, todo o seu comportamento mudou quando me viu para me agradar, sorriu um sorriso patético que revelou uma falta de dentes e pretendeu disfarçar o facto de que ela estava no fim da sua prioridade. Senti-me fisicamente doente por esta pobre mulher viver a sua vida vendo-a como a sua sina, enganada na crença que Deus queria isso dessa maneira, que por algum motivo a sua vida devia ser uma enorme punição, uma penitência por alguma pecado desconhecido e com temor demasiado entranhado para levantar alguma objeção. Lembro distintamente ter deixado a casa com um sentimento de peso e tristeza difícil de explicar.

Chen conseguiu dar um pouco de assistência financeira à família, mas ali nunca poderia ser o suficiente. Ele resgatou o pequeno Edgar pelo menos por alguns anos para que a criança pudesse frequentar a escola dos Irmãos Católicos o que, considerando a história, era o seu direito de nascimento. Enquanto eu sentia frequentemente uma grande frustração de que a sua fé os acorrentasse tão fortemente, algemando-os, Chen nunca, penso, viu isso dessa maneira. Ele respeitava pois essa era a fé deles, via que era uma parte essencial da sua existência, que não devia ser questionada ou destruída por outros. Entristecia-o ver sofrimento, mas sabia que isso fazia parte da condição humana. Tirar-lhes a sua fé, conquanto essa parecesse cruel, mesmo que fosse sem sentido para outros, seria destrui-los completamente. Ele nunca foi conhecido por ter feito qualquer tentativa de alterar as crenças pessoais de uma pessoa.

Para além da ajuda material que lhes deu, tratava Edgar o pescador com um respeito que duvido que poucos ou até alguém alguma vez lhe mostrou.

Edgar era um homem trabalhador que não tinha tido educação, não propriamente um trabalhador laborioso porque na maior parte do tempo simplesmente não havia trabalho, mas Chen falava com ele como um igual, falava de barcos e do mar, sobre navegação e o tempo, sobre turistas, sobre uma miríade de coisas que Edgar compreendia e que podia relacionar. A sua vida no mar tinha-lhe ensinado coisas que ele nunca teria aprendido na sala de aulas. Os elementos são cruéis mas são professores meticulosos e com Chen ele tinha uma possibilidade de ventilar o seu conhecimento. Em pouco tempo pareceu ter crescido em estatura, parecia estar mais direito e já olhava nos olhos. Mas, tal como a mulher que vivia perto dos Rampas na casa dos quartos em Londres, havia pouco que uma pessoa podia ou devia fazer para facilitar as suas vidas. Ambos tinham os seus caminhos escolhidos. Uma pessoa podia apenas mostrar reconhecimento assim como gentileza e esperar que algures no tempo eles se lembrariam disso e não se sentissem completamente sós e esquecidos pelo seu Deus, o Deus no qual tinham fé cega fosse qual fosse o vento que lhes enviasse.

Das outras pessoas da cidade recordamos o condutor de táxi e o casal que vivia mais acima em Balscadden Road, afastado um pouco da estrada, longe do mar, numa casa moderna paralela a outras casas similares. O que era notável neste casal era o facto de Chen os favorecer de todo, especialmente Vera que se tornou uma bastante boa amiga de Ra’ab, de facto ele tornou possível para ela e sua filha que nos visitassem mais tarde no Canadá, a qual penso ter sido a viagem da vida delas. Paddy, o marido, era um brincalhão, um tipo de homem de trato fácil e não era raro vê-lo cambaleando no seu caminho até Balscadden Road num estado etílico, provavelmente vindo do autocarro de Dublin cujo término era ao fundo da rua ao lado do quiosque. Nessas ocasiões eu afastava-me, quer dando-lhe um espaço muito largo ou simplesmente voltando para casa até que lhe passasse o feliz estado, o que às vezes demorava um tempo assinalável. Chen era muito caminho do meio e tolerante nas suas visões da vida, mas álcool era uma coisa que ele detestava, via-o como um abandono da psique que deixava o bêbado aberto a possessão por entidades astrais inferiores e, se bem que a possessão fosse temporária, era ainda assim prejudicial. Era por isso que a sua tolerância com Paddy sempre me surpreendeu. Obviamente, nós sabíamos que Paddy não era abstêmio, não era preciso um grande poder mental para deduzir isso, mas por algum motivo isso não era mencionado em casa. Como Ra’ab era muito amiga de Vera, talvez fosse prudente não dizer nada. Talvez contornássemos o tema, ou melhor, talvez eu o fizesse.

O condutor do táxi local era parecido com Edgar, outro que deve ter sentido que ganhou a lotaria quando os Rampas chegaram à cidade. Era um sujeito lento, sólido, não muito conversador. Se fosse à sua casa na estrada principal era sempre tempo de comer, uma refeição que se estendia o dia inteiro e o deixava corpulento e de alguma forma mole. Nunca tinha sido muito do tipo de pedir ou esperar muito da vida, aceitava o que vinha e era grato por ter uma mulher trabalhadora que mantinha o espaço limpo e arrumado e tomava conta das contas. O que o perturbava mais era o facto de que o táxi – o seu meio de vida – ia obviamente avariar e expirar antes dele e depois o que faria? Tal como era, havia apenas o suficiente para conservar a carripana a andar e ele temia uma grave avaria algures na estrada. Era um pouco mecânico, tinha de ser quando os automóveis são o seu negócio, mas não era perito, qualquer fantasia como uma nova máquina estava fora de questão para ele lidar com isso e era demasiado caro para outra pessoa. Ele apenas confiava no Senhor e dizia as suas preces duas vezes por dia e mesmo que não fosse o mais fiel dos participantes na missa ele tinha uma grande certeza que as suas preces seriam ouvidas.

Nós usávamos bastante o táxi, principalmente para ir a Dublin mas também para viagens pelo campo próximo e ao longo da costa. Devemos ter sido os melhores clientes, não apenas por termos andado uma boa quilometragem, como também havia uma grande gorjeta para além do custo da tarifa no fim de cada viagem.

Depois de vivermos em Howth por algum tempo comprámos um Heinkel, um carro de três rodas, ou “carrito” se essa palavra existe, um veículo minúsculo que era adequado para a maioria das voltas, mas nunca esquecemos o taxista. Nada me foi dito em casa, mas um dia encontrei-o na cidade dirigindo um espetacular automóvel novo e parecendo inchado de orgulho assim como de comida. “Porquê, Ed, que carro bonito!”, exclamei, enquanto ele abrandou ao me ver.

“Ah, com efeito, menina. O bom doutor conhece o que é bom quando o vê.”

Quando cheguei a casa e perguntei pelo carro, descobri que – sim, tinha-lhe sido dado por Chen. “Pobre criatura, ele estava doente de preocupação se um dia tivesse uma avaria no meio do nada, talvez com uma mulher no assento de trás quase a dar à luz ou pior. Tinha de lhe levantar esse peso.” Tão simples quanto isso. Afinal, era apenas um carro.

Para Chen, o dinheiro em si significava muito pouco, mas ele valorizava-o como um meio para atingir um fim, era o tijolo do assim chamado mundo civilizado sem o qual nada pode ser construído. Na realidade, deixou Ra’ab gerir o dinheiro e ela era por natureza reservada e cautelosa. Não necessariamente que ela não confiasse numa pessoa em particular, era difícil para ela confiar em alguém.

Na altura em que estávamos a viver na Irlanda devia ter havido dinheiro proveniente de “A Terceira Visão” e também muitos impostos, mas era um assunto que raramente discutíamos como uma família. O livro foi um sucesso, isso sabia, mas o seu sucesso foi valioso, para mim de qualquer modo, não tanto pelo dinheiro mas como facto de ter tido sucesso depois de uma luta árdua e dura para achar um modo de ganhar a vida. Ele foi sempre generoso com o dinheiro, dando gorjetas excessivas e ajudando pessoas que via como necessitadas, mesmo quando mais tarde tivesse muito pouco. Por exemplo, nessa altura ele nunca ia a Dublin sem trazer presentes, coisas para agradar como caixas de chocolates, plantas ou livros.

Por outro lado ele não gostava de aceitar nada de ninguém. De facto por algum tempo isso tornou-se o pomo da discórdia comigo. Eu via isso como sem sentimentos e sem graça, no entanto como podia ser isso? Ele era a graça personificada. Talvez fosse simplesmente por se saber diferente, de não ter laços à Terra e não tinha qualquer vontade de incorrer em dívida de qualquer espécie. A sua atitude sobre isso não foi de todo uma coisa benéfica já que foi mal interpretado não apenas por mim mas por outros que sentiam a necessidade de expressar o seu apreço por ele e qual a melhor maneira de o fazer que através de uma prenda que pensassem que agradaria? Quando recebiam uma recusa, isso deixava um sentimento de frieza e ressentimento. Ele aceitava presentes em dinheiro porque isso era utilizado na compra de materiais de pesquisa, coisas essenciais para o seu trabalho e ele via o seu trabalho apenas como beneficiando o mundo, sem qualquer benefício ou ganho pessoal. As prendas em dinheiro eram dirigidas para o trabalho que tinha empreendido. Ao mesmo tempo se fosse capaz de pagar a dádiva de algum modo, ele fazia-o. Por vezes tínhamos de especular se ele lamentava o compromisso que tinha assumido, o trabalho que tinha de fazer, embora nunca tenha expressado tal ideia. Mais tarde, atendendo à perseguição que sofreu por aqueles que mais beneficiariam do seu trabalho, isso pareceu excessivamente duro e injusto.

Efectivamente, ele aceitou ajuda numa base diária sobre coisas que podia facilmente fazer, por estar tão atento aos sentimentos dos outros. Trabalhar com ele era ter a mais encantadora, cativante e a melhor companhia imaginável. Tinha o espantoso dom de o fazer sentir-se válido, capaz e competente – mesmo se você não fosse realmente tão maravilhoso e certamente nem de perto tão bom ou rápido como ele era ao fazer coisas. Gostava de o ensinar como se faz uma coisa, sempre com paciência e humor e o segredo era que ele verdadeiramente gostava disso, era capaz de mostrar o melhor em cada pessoa mesmo se ela parecesse ter muito pouco para mostrar. Era como um jardineiro tratando das plantas, ciente das necessidade individuais e capaz de as fornecer porque gostava de ver a vida florescer. Viver na sua órbita era relaxante, harmonioso, enquanto, ao mesmo tempo, era activo e ocupado, sempre atento à próxima tarefa na sua companhia. Não consigo pensar em qualquer posição mais privilegiada para se estar e, quando comparado com os horrores do mundo moderno profissional e de negócios, isso era o paraíso.

Não era apenas preocupado e generoso com os pouco privilegiados. O status na vida de uma pessoa não era importante para ele. Frequentemente acontece que quanto maior a posição da pessoa maiores as vicissitudes e menor a possibilidade de assistência externa, por isso os ricos e poderosos eram vistos por ele como tão necessitados como os pobres em certas circunstâncias. Chen tinha um desprezo refrescante no que tocava a dogmas e costumes sociais. Dir-nos-ia que não tinha tido nenhum treino nas boas maneiras de comportamento e nas coisas que uma pessoa devia ou não fazer e, embora o facto de não ter tido treino ser uma perfeita verdade, ainda assim conhecia muito bem o que a sociedade esperava dele mas via isso como sendo superficial e ridículo, muita vezes para exasperação dos outros. Fazia o que considerava apropriado e certo, de acordo com a sua própria crença, não interessava quem fosse o outro. Ele abordaria uma pessoa próspera exatamente da mesma maneira que um trabalhador, um político da mesma maneira que um funcionário. Todos eles tinham problemas e dificuldades, mesmo que estas variassem de acordo com a posição da pessoa, as quais, em todo o caso, para ele eram temporárias e aplicáveis apenas a esta vida. Se via uma maneira de ajudar, ou lhe fosse solicitado, ajudava. Constatámos quando realmente o analisámos, uma falta completa e absoluta de esnobismo que é em geral inabitual, mesmo entre aqueles que proclamam alto a sua ideologia democrática e a libertação do esnobismo mas depois se descobre que têm a sua própria variante deste, tal como qualquer outra pessoa.

Antes de deixarmos Howth de vez, há uma outra pessoa que tenho de incluir embora nunca tenha falado com ela. Eventualmente também ela tenha experimentado a graça de Chen, apesar de ter sido rudemente interrompida quando tivemos de deixar o país por uma vida diferente muito longe além-mar.

Eu apanhava muitas vezes o autocarro para Dublin. O autocarro era vantajoso e permitia mais tempo para fazer o que tivesse de ser feito na cidade, por isso era preferível para mim do que contratar um táxi e ser obrigada a mantê-lo à espera. O autocarro saía da parte baixa de Balscadden Road, apenas a cinco minutos a pé de Ben Edair, colina abaixo, contornava a esquina e aí estávamos. Ele partia com bastante frequência geralmente no horário e a viagem em si era bastante agradável de fazer, se bem me lembro cerca de hora e meia para cada lado. Era um autocarro de dois andares e formei o hábito de me sentar no andar de cima onde a vista era melhor e havia menos pessoas.

Sucedia regularmente que quando decidia ir a Dublin ou tinha de fazer recados como levar rolos fotográficos para revelar, recolher as impressões finais, comprar livros ou revistas que eramos incapazes de encontrar em Howth, por alguma coincidência curiosa uma certa mulher tomava o mesmo autocarro e, invariavelmente, como se dirigida por alguma força secreta escondida, ela fazia o seu trajeto para o assento diretamente à minha frente. Era uma coincidência que não me agradava particularmente porque esta senhora possuía um odor corporal muito distinto que flutuava em volta, levado pelo ar marítimo que entrava pela janela aberta que incessantemente assaltava as minhas narinas sofredoras. Pátios de quintas, cães molhados, estrume de jardim, nenhuma dessas coisas me incomodava grandemente, mas o cheiro de corpos humanos que não se lavam acho terrivelmente desagradável e nauseabundo. Não era apenas isso, pior – o seu pescoço estava imundo, com sujeira preta enraizada, um pescoço que não via sabão talvez há anos.

Parecia fascinantemente horrível, de facto quase inacreditável, que alguém pudesse realmente e na verdade ter um pescoço tão sujo; os meus olhos eram atraídos e fixados nessa visão espantosa como se fosse um farol piscando.

Porque não me sentei noutro lugar, podem perguntar e bem. A resposta é simples, ela era obviamente alguém que tinha visto melhores dias e a minha desgraça pessoal era, ao contrário de Chen, ter sido treinada nas artes sociais e no que uma pessoa fazia ou não. Por isso mantive-me firme. As suas roupas eram, ou tinham sido, bastante maravilhosas, até ostentava um ou dois chapéus, luvas e uma mala de mão. No inverno usava tweeds Harris, folgados, desgastados mas anteriormente tweeds robustos e práticos. No Verão usava vestidos Liberty, fora de moda há anos, rasgados em sítios com as dobras caídas para baixo onde não tinham direito a cair, no entanto vestidos Liberty com cores e desenhos espantosos e belos. Se eu trocasse de lugar ela teria notado e ficado ofendida. Era necessário suportar estoicamente o cheiro pavoroso, com o pescoço sujo, em vez de ofender uma senhora em circunstâncias angustiantes – afinal, embora o céu proíba, podia um dia ser alguém, nunca se sabe. Havia, claro, sempre a possibilidade de ter sido ajudante de uma senhora e usava roupa em segunda mão, mas rejeitei essa ideia quase tão depressa quanto me cruzou o pensamento. Ela tinha uma estranha maneira de andar, quase desajeitada, atirando um pé para a frente enquanto andava, pernas longas, um exemplo típico de excesso de reprodução e, apesar de tudo, tinha um certo comportamento diferente e superior aos outros. Não, não podia haver dúvida acerca disso, ela vinha de um ambiente aristocrático mas algures no caminho tinha-se dado mal.

Enquanto me sentava ali esperando desconfortavelmente que o autocarro chegasse a Dublin, muitas vezes imaginei de onde ela teria vindo, onde vivia na cidade, qual era a sua história? Considerei perguntar a alguém, mas ao mesmo tempo em que coloquei a pergunta na minha mente – “Por acaso conhece onde vive a senhora que cheira?” eu determinei a impossibilidade de isso acontecer. Simplesmente não o faria. Teria de reprimir a minha curiosidade, não havia nada a saber.

Então, como tinha sorte, um dia na viagem de regresso ali estava ela no autocarro para casa, já sentada. Sentei-me num lugar algumas filas à frente dela e a viagem passou, sem cheiro e pacífica. Quando chegamos ao término perto do pequeno quiosque fiquei no meu assento e deixei-a passar e sair à minha frente. Estava determinada em segui-la até à sua casa.

Logo ali à saída da paragem de autocarro havia alguns edifícios e para minha surpresa ela desapareceu, quase como um fantasma que passa através de paredes. Devia haver alguma entrada escondida, claro, mas na altura em que cheguei ao ponto do desaparecimento ela tinha sumido. Que ela vivesse algures nesse lugar, o qual muito me parecia uma coelheira e onde sempre assumi que os pescadores e as suas varinas viviam, era outro mistério. Ainda assim tinha falhado a minha ação detectivesca, ela tinha-se-me esquivado. Ah, mas não tanto assim!

O médico local tinha o hábito de nos visitar frequentemente para confirmar o estado de Chen, e na visita seguinte quando chegou sucedeu que eu estava na sala tomando ditados e instruções para responder à correspondência. Ele verificou o estado do seu paciente, falou um pouco e acompanhei-o ao automóvel que o esperava. “A propósito, Dr. B., há uma mulher em Howth que me fascina bastante. Penso que talvez a deva conhecer.” E continuei a descrever a mulher, não fazendo discretamente referência ao cheiro que a acompanhava.

“Oh, refere-se a Miss E., penso. Ela é um pouco -hum – bem, não tão bem lavada?” Assenti, e continuou, “Bastante triste, é um pouco – um pouco – não completamente certa, inofensiva, percebe, mas não totalmente certa. Tem muito dinheiro, ou assim acredito. Escolhe viver da maneira que quer, não se relaciona com a família, ou coisas assim. Ela tem algum título antes do seu nome, Honorável, não tenho a certeza, o pai dela tem muitos terrenos, uma grande região. Você sabe como é …”. Ele entrou no carro e baixou o vidro. “Bom, voltarei outra vez em poucas semanas. O bom doutor parece suficientemente bem, bastante bem. Um bom dia para si, querida senhora.” E foi-se embora. Não era uma informação que ajudasse muito, mas agora pelo menos conhecia o seu nome e que não me tinha enganado nas minhas suposições sobre o seu nascimento.

Deve ter sido uma questão de semanas depois disso em que Chen e eu andávamos um dia pelo porto a tirar fotografias. Era um desse tipo de dias tempestuosos e revigorantes, quando se tem de segurar tudo o que se transporte, quando os seus cabelos batem nos seus olhos e o sal do ar deixa o seu sabor nos teus lábios. Era o meio da manhã, se bem me lembro, todos os barcos de pesca tinham deixado a segurança do ancoradouro e estavam no alto mar fazendo a sua faina tentando capturar os peixes. Nessa espécie de temporal a maioria dos habitantes locais que não são pescadores mantêm-se em casa, eles foram criados nesse lugar e o vento e as vagas para eles têm pouco significado romântico. Era um dia para estar dentro de casa, o local estava deserto.

Eu era o “burro” nesse tipo de excursões, transportando e conservando secas as câmaras, cuidando das diversas lentes. O vento era demasiado para um tripé, tê-lo-ia baloiçado e anulado qualquer utilidade que pudesse ter, seria melhor confiar numa mão segura e numa exposição rápida. Chen transportava o medidor de exposição ao pescoço e verificava-o constantemente.

Estávamos a meio caminho do ponto mais distante do paredão do porto quando o meu interesse foi cativado por uma figura que se aproximava vinda da vila.

Estava a observar Chen e apenas vi meia metade com o canto do meu olho, mas na altura em que o disparo foi feito, virei-me para ver e sim, era ela, era Miss E. avançando, parecendo uma figura de uma novela de Jane Austen, com uma grande capa nela enrolada, agitando e ondulando enquanto o ar a atingia e açoitava.

Tinha o capuz em cima da cabeça, apertado firmemente no pescoço, mas não havia dúvida nenhuma, não havia que enganar no seu andar, era Miss E. O que poderia haver na terra para ela andar ao longo do paredão do porto tão propositadamente como se tencionasse ir a algum sítio - mas não havia nenhum lugar para ir excepto o mar.

“Veja Chen, aquela é a mulher sobre a qual lhe falei, aquela que apanha sempre o autocarro para Dublin. Para onde irá neste tempo ao longo do paredão?”

Estava curiosa mais do que um pouco e tinha um sentimento de pavor. E se ela fosse saltar para o mar?

Ele voltou-se lenta e casualmente. “Bem, para uma coisa há dois dela.“ disse enquanto se virava para mim. “Deve ser esquizofrenia, não está alinhada apropriadamente com o seu corpo, na realidade está agora completamente fora de si, ela está literalmente fora de si.”.

“O que quer dizer?”.

“Buttercup, leve a câmara e o equipamento para casa. Ela está com problemas. Vou ver se lhe posso falar. Despache-se agora. Vê-la-ei em casa dentro de pouco tempo.”.

Algo desapontada, segui o seu convite e regressei a casa transportando o equipamento fotográfico e deixando-o aproximar-se de Miss E..

Enquanto subia a colina pensei nela. Esquizofrenia, tinha ele dito. Ainda recentemente tínhamos recebido uma carta para responder de uma mãe de um filho com essa doença. Havia pouco que um médico podia fazer pela criança, não têm uma compreensão real da doença e mesmo se lhes for dito que isso envolve um desalinhamento no qual o corpo astral é incapaz de se alinhar por si com o corpo físico e por esse motivo torna incompreensíveis as mensagens do Superego através do Cordão de Prata, não acreditariam nisso, eles não podem aceitar o corpo astral como uma realidade, nem o Cordão de Prata e, certamente, nem o Superego. Do ponto de vista de um psíquico, no entanto, isso é tão simples, tão óbvio, pode ser visto claramente, embora para um não clarividente com uma mente fechada isso é inaceitável. Enquanto penso sobre isso, espantame que nos consideremos a nós próprios tão espertos, tão civilizados, tão avançados, quando na realidade somos tão cegos, incapazes de até considerar qualquer coisa para além dos limites do nosso alcance tridimensional.

O resultado do encontro com Miss E. foi que Chen manobrou para chegar até ela, conseguiu efectuar algum tipo de melhoria mas foi interrompido por publicidade desfavorável e perseguição da imprensa, pelos seus problemas de coração e pela necessidade de deixar a Irlanda, atravessando o oceano diretamente para o Canadá. As boas sementes têm efeitos à distância, mas também as más sementes. Por causa da inveja é duvidoso que essa pobre mulher alguma vez tenha alcançado a recuperação total, apesar de ser dirigida por Chen. O que lhe aconteceu, não tenho ideia, mas pelo menos ela deve ter tido um vislumbre de algo melhor, alguma razão e propósito para a sua vida nos poucos encontros que teve com ele. Sabendo da sua habilidade única de realmente ver o que a afligia e sabendo que muito poucos podiam ver como ele, Chen sentia ser sua responsabilidade fazer o que pudesse. Essa era uma parte da sua graça.

E então viemos para o Canadá. Estas duas palavras, “Landed Immigrant” estampadas nos nossos passaportes representavam para mim um estigma a ser engolido com orgulho, mas não para Chen e Ra’ab: eles não sofreram o desligar e, aparentemente, nenhum trauma em face a uma vida completamente nova e diferente, de facto penso que eles a saudaram, vendo-a como um progresso. A Grã-Bretanha não tinha sido agradável para nenhum deles, ainda que Ra’ab fosse uma cidadã nascida e criada na Inglaterra.

A vida em casa no Canadá decorreu de forma muito parecida como anteriormente. Era gasto muito tempo com o correio, o qual se tornou um tema diário muito parecido com um emprego regular, de facto era o que era. Nós arrendámos uma caixa postal na estação de correios, onde quer que estivéssemos a morar no Canadá. Cada dia eu ia recolher o correio uma, às vezes duas vezes. Os leitores eram no geral instáveis, sendo tentados e seduzidos pela opinião pública e revistas, não era um trabalho inteiramente seguro e certamente não era pago. Às vezes havia resmas de cartas, noutras alturas eram escassas, mas até os autores precisam de férias, por isso a escassez ocasional não era um assunto mau, excepto por refletir poucas vendas de livros e a venda de livros era o nosso meio de vida.

Chen mostrava um grande cuidado e altos princípios na gestão do correio. Invariavelmente, ele descansava na sua cama quando eu despejava a pilha de cartas na sua frente, todos os dias. Sentava-se direito, alcançando a bandeja de madeira resistente que lhe servia de secretária, colocada em cima dos seus joelhos, e pegava no seu abre-cartas. Eu traria uma cadeira, Ra’ab traria outra e estávamos prontas, assim que encontrasse um lápis e um bloco para escrever. O seu hábito era percorrer a pilha e selecionar qualquer carta que soubesse estar relacionada com o seu agente, editor ou contabilista e essas tinham de ser tratadas em primeiro lugar. Frequentemente ditava uma resposta completa. Se fosse comprida, utilizaria a sua máquina de ditar manual, com preferência pelo equipamento Sony e, se fosse curta, eu anotava-a no meu modo único de escrita abreviada, indecifrável para qualquer outro, não porque fosse secreto, mas porque nunca aprendi a taquigrafia padrão.

Com essas cartas fora do nosso caminho podíamos fazer uma pausa para chá e biscoitos, ou talvez chá e chocolate de que ele gostava. Então era tempo para as cartas dos fãs. Ele abria todas as cartas antes de tirar uma dos envelopes, cortando-as metodicamente com o seu abre cartas, mostrando a sua habitual mente organizada, e empilhando-as na ordem em que sentia que as queria ler. Qualquer selo que considerasse valioso para guardar para um colecionador seria colocado num envelope especial para quando um colecionador aparecesse, ou para alguém que já soubesse que coleccionava selos.

Cartas daqueles que já tivessem escrito antes eram colocadas em primeiro lugar no topo da pilha e geralmente eram lidas com grande interesse.

Ele tinha tido tempo para responder aos seus pedidos e ver uma segunda ou terceira carta da mesma pessoa era semelhante a ver uma carta de um conhecido.

Tenho um amigo que ficou muito ofendido com a mensagem num dos seus livros, penso que foi numa edição posterior de “A Terceira Visão”, no qual Chen recordava aos leitores que custa dinheiro responder a cartas. Os custos postais realmente sobem, assim como os fixos, e durante as alturas em que achámos difícil fazer face às despesas, a resposta às cartas tornouse um problema, mas não um problema intransponível que era ignorado se o escritor era genuíno e tivesse um problema e mesmo que nenhum selo fosse incluído a carta seria respondida com a melhor habilidade de Chen.

Não seria verdade se dissesse que ele respondia a todas as cartas. Não o fazia, mas conseguia responder a uma muito grande percentagem e sempre para aqueles em necessidade. As suas respostas eram bem consideradas e pessoais. Podia, às vezes, ter grandes problemas para descobrir as moradas, nomes, lugares das pessoas que o solicitavam. Qualquer pergunta sobre metafísica ou o oculto era fácil para ele, nunca necessitou de consultar dicionários ou livros de referência, a resposta estava na sua cabeça e frequentemente desenvolvia a resposta para esclarecer de todo a questão e o mesmo acontecia com a maioria das questões médicas. Muitas pessoas que escreviam tinham dificuldades de uma natureza muito complexa e ele tratava as suas cartas com respeito e privacidade. Depois das cartas terem sido respondidas, eram passadas pelo nosso destruidor de papéis de modo a que nenhum traço sobrasse para detetives curiosos. Nunca conservámos cópias dessas respostas excepto, claro, das cartas comerciais.

O processo de abrir as cartas e ditar as respostas ocupava uma grande parte da manhã. Em alguns casos ele dava-me simplesmente a essência do que queria dizer e eu compunha a resposta. Com o passar do tempo e em face do declínio da saúde, isso tornou-se mais frequente, mas conhecia-o tão bem e estava tão familiarizada com o seu estilo e resposta, que foi como se tivessem sido escritas por ele. Naturalmente, sempre validava essas cartas. Uma vez escrita à máquina, Ra’ab verificava se tinha erros e passava-a a Chen, que a assinava após uma breve verificação para ter certeza de que tudo estava em ordem.

Havia ocasiões em que ele apanhava alguma impressão especial de uma carta, quer através do toque ou simplesmente uma vibração. Uma de que me lembro em particular era de uma mulher em Brighton. Ela ganhava a sua vida ensinando piano. Esqueci a razão exata porque escreveu, mas na sua resposta ele mencionou que sentia que ela podia sair-se bem como uma artista, por ter segurado na sua carta podia ver claramente que ela teria sucesso. Não tinha sido feita nenhuma menção de pintura na sua carta e apenas podemos imaginar a sua surpresa ao lhe ser dito que ela podia tornar-se uma artista, isso nunca foi uma coisa que lhe tivesse passado alguma vez pela mente. Ainda assim, ao seu conselho ela começou a pintar a óleo e, com certeza dentro de um período notavelmente curto de tempo, tornou-se uma talentosa artista, exibindo em Burlington House onde uma das suas obras foi na realidade comprada pela Rainha e se tornou parte da coleção Real.

Outro meio pelo qual ele comunicava com alguns leitores era através de gravações. No início, em Londres nos anos 1950’s, utilizava um gravador de fio que muitas pessoas talvez nunca tenham visto. A pior coisa, tanto quanto me lembro, era de vez em quando o fio ficar enrolado numa forma horrível e tenho uma imagem diante de mim, que certamente é factual, de algum gato brincando com o fio que ele tentava desenredar. Mas em breve os gravadores de fita apareceram no mercado e não demorou muito antes de tentar processos diferentes. Acredito que as primeiras fitas que enviou para pessoas eram no formato de banda magnética, depois em cartuchos e finalmente em cassetes. Era extremamente interessado em electrónica e diria que ele gostava de enviar mensagens para diversas pessoas, dava-lhe uma razão válida para utilizar as máquinas de gravação. Falava lenta e muito claramente, nunca com notas, e era frequentemente muito humorado, por isso posso imaginar que as suas gravações tenham dado uma enorme prazer aos seus leitores. Ra’ab, ocasionalmente, juntava-se nessas gravações e até os gatos tinham o que dizer nas suas inconfundíveis vozes de gatos siameses – as quais, semelhantes a música oriental, ou você ama ou detesta.

Vivemos numa dúzia de lugares no Canadá. Os nossos pertences nunca tiveram permissão de acumular porque significariam uma horrível convulsão quando chegasse a próxima mudança. Por vezes mudávamos dentro da vila ou cidade, outras vezes mudávamos para longe, mas era sempre o mesmo quando pegávamos as coisas e as colocávamos num novo local. Não estou bem certa se era da sua natureza estar sempre em mudança ou se estas eram ditadas pelas circunstâncias. Ele parecia estar com pressa para fazer o que tinha de fazer, como se o tempo se estivesse a esgotar. Em contraste acentuado com a sua mente ativa e a velocidade que atingia ao fazer o que tinha decidido fazer, possuía uma impressionante paz interna e tranquilidade. As constantes mudanças teriam criado a devastação na saúde nervosa de alguém se não fosse a sua calma e paz interna e o distanciamento dos valores mundanos. Por consequência, tornou-se um meio de vida normal e aceitável. As pessoas com quem convivemos durante todo este tempo eram tão variadas como as próprias mudanças e aqui tenho uma memória confusa da qual é difícil selecionar com rigor uma cara da outra no meio da confusão, ou uma pessoa de outra que tenha recebido um determinado presente ou acto de graça. É apenas seguro dizer que, por qualquer lugar onde tenha andado deixou uma profunda e duradoura impressão, nem sempre, possivelmente, favorável. Havia aqueles que, como um cão que sente algo estranho, arreganha os dentes, sentindo que há alguma coisa aqui que não percebe e que o faz sentir estranho, receoso.

Generalizando, pode ser dito que a esse grupo estava faltando consciência espiritual, os seus valores eram puramente materialistas, estavam presos pela tradição e crenças arreigadas provenientes de falsas religiões. Mas houve muitos mais que reconheciam um grande homem, que responderam e que ganharam novo contentamento proveniente do seu contacto, por mais breve que tenha sido. Ainda que dificilmente qualquer amizade próxima e duradoura fosse feita, a sua sinceridade era real, mas era como um barco que passa na noite, hoje aqui, amanhã longe.

Há uma pessoa que posso ver muito claramente na minha mente e exactamente como ela era, deambulando em volta na sua cadeira de rodas eléctrica fazendo a vida um inferno para toda a gente que tivesse a infelicidade de cruzar o seu caminho. Era assim, até ter conhecido Chen. Tinha uma língua ácida e uma disposição miudinha. Ela não era só deformada fisicamente, parecia que a sua alma também estava corroída.

Foi em Alberta que a conhecemos. Vivíamos na altura em um novo edifício de apartamentos próximo da baixa, no último andar, ou muito próximo do último, e tínhamos ficado com dois pequenos apartamentos que a gerência amavelmente juntou num único para nos acomodar. Eles eram bons a acomodar pessoas. Era difícil arranjar inquilinos, a indústria do petróleo ainda não tinha saído dessa parte do país e nenhuma pessoa sã queria viver ali, por isso estavam felizes por nos ter, conjuntamente com os gatos, o que nem sempre acontecia em outras cidades canadianas. Os animais de estimação eram e ainda são banidos na maioria dos apartamentos para alugar, o que foi uma das razões por termos abandonado Vancouver.

No piso térreo, debaixo dos apartamentos, havia lojas e tenho de dizer que era conveniente apenas deslizar pelas escadas abaixo, quando estava ou demasiado calor ou demasiado frio para passar muito tempo fora de casa nas compras, o que parecia ser o caso na maior parte do tempo. Na área do piso térreo que parecia um centro comercial, havia um supermercado e uma farmácia, bem como alguns escritórios, e entre as duas lojas conseguíamos encontrar a maioria dos produtos necessários para a sobrevivência básica. Se queríamos livros, equipamento eletrónico ou fotográfico, artigos de escritório, tínhamos de ir mais longe, mas a farmácia, ou drugstore como é geralmente chamada na América do Norte, sempre tinha um bom suplemento de revistas e brochuras estranhamente decentes. As revistas novas chegavam nas terças-feiras, e cada terça-feira eu era enviada escada abaixo para ver o que tinha vindo. Apesar da maioria das revistas de que Chen gostava serem publicações mensais, Popular Science, Mechanics Illustrated, Photography, revistas sobre automóveis, eletrónica, telescópios, assuntos correntes, etc., -e havia um número assombroso de tais publicações – elas saiam em diferentes dias do mês, nunca o deixando destituído de material de leitura. Se eu cometesse um erro, era fácil voltar e trocar, o farmacêutico era um homem agradável e ligeiramente pálido, com vontade de agradar e conservar um bom cliente.

No dia memorável em que conheci Mary pela primeira vez estava a chover e também não estava muito agradável. Era um dia miserável, o que em si era inabitual para aquela parte do Canadá conhecida, como é, pelos límpidos céus azuis mesmo nos dias mais gelados onde podiam estar muitos graus abaixo de zero e a miséria do dia pareceu um ambiente adequado para o encontro. Deve ter sido numa terça porque era dia de livros. Apanhei o elevador para o átrio e virei a esquina correndo com o meu guarda-chuva aberto, embora houvesse uma espécie de arcada que circundava o edifício, e porque era terça-feira sabia que haveria novas revistas se não fosse muito cedo. Assim que espreitei para o meu relógio reparei que, com efeito, poderia ser cedo demais e Mike Greene, o farmacêutico, estaria sem dúvida na sala das traseiras comendo o seu almoço com o pacote grande de revistas no seu gabinete ainda fechado esperando que ele abrisse os embrulhos para que a sua ajudante as pudesse arrumar nas prateleiras. Ela não era muito brilhante, essa ajudante, mas conseguia organizar-se para encontrar os produtos habituais desde a pasta de dentes, a preservativos e aspirinas enquanto Mike comia os seus dois boiões de yogurte de morango, a sua maçã e a banana, um almoço insuspeito e repetitivo. O seu nome era Molly e adorava fofocar, em especial quando Mike colocava o letreiro “Pausa para Almoço. Por favor deixe a prescrição na caixa” no topo do seu contador de clientes por cima de uma caixa de papelão com uma fenda. Ela parecia imaginar que ele não tinha nenhuma ideia do que se passava no local enquanto estava nas traseiras almoçando, mas ele ouvia tudo e suspirava em cada palavra quando não estava demasiado embrenhado no jornal “Globe & Mail”.

Empurrei para abrir a porta e encontrei um chão muito húmido com marcas de rodas e uma boa dose de lama. Não havia muitas pessoas na cidade que utilizassem cadeiras de rodas nessa altura porque era muito difícil para elas manobrá-las, não havia rampas e eles eram tratados quase como párias. Os saudáveis, em forma e capazes ou arregalavam os olhos para eles ou olhavam para longe embaraçados, de modo bastante diferente de hoje em que as cadeiras de rodas e os seus ocupantes são aceites como normais e não são mais confinados às suas casas ou sacadas como eram então. Por isso foi um ponto de interesse que uma pessoa em cadeira de rodas estivesse algures na drogaria.

Examinei as prateleiras para ver se algo novo lá estava desde a última semana, e do outro lado dos escaparates consideravelmente altos ouvi uma voz incómoda, alta e aguda exaltando-se com Molly de uma maneira que parecia ser irrazoável.

“Não, não, porque nunca consegue fazer isso direito, sua rapariga tonta. Eu quero ESSE sabonete, eu levo sempre ESSE sabonete, se tivesse algum senso já devia saber isso agora!” Havia um golpear seco que acompanhava e acentuava as suas palavras, pois arreliada batia no chão com uma bengala. Eu aproximei-me do fim dos escaparates e espreitei casualmente para o outro lado. Ali estava ela, uma mulher minúscula, encolhida, as suas pernas inchadas presas em frente dela, demasiado pequenas para alcançarem o descanso dos pés, o seu cabelo grisalho encaracolado e crespo, seco e que mal cobria a cabeça, as mãos roxas com os seus dedos retorcidos, uma agarrando o controlo da cadeira e, na outra, uma bengala obviamente a fonte das pancadas. “Nesta altura qualquer pessoa pensaria que soubesse. Onde está o Mike?”. Ela manobrava a sua cadeira com muita perícia e dirigia-se a mim, procurando obviamente por Mike que sem dúvida estava tremendo na sala das traseiras, perguntando-se se poderia continuar a almoçar onde estava, ou se ela o farejaria e o faria sair.

Na altura em que terminou este incidente bastante alarmante, tendo Mike aparecido para a apaziguar e tendo ela exigido que o sabonete fosse posto na conta pois não tinha nenhum dinheiro consigo, eu estava já ao lado da porta pois era claro que as revistas ainda não tinham sido colocadas nas prateleiras pelo que poderia por isso voltar mais tarde. Estava prestes a sair quando vi a cadeira de rodas vir em minha direção com uma velocidade surpreendente, estonteante. Agarrei no puxador da porta e escancarei a porta para deixá-la passar antes de me atropelar quando, para minha estupefação, ela se puxou para cima nos seus apoios e agora se virava para mim. “Eu não preciso que ninguém me abra a porta, muito obrigada, e especialmente pessoas como você. Você não pensa, não? Fique apenas fora do meu caminho, certo? Ande!”, e felizmente com essa deixa foi-se embora num rodopio de rodas.

“Meu Deus, Mollie, o que foi isso?” Perguntei, quase num estado de choque. Essa mulher diminuta, quem quer que fosse, tinha um ego enorme, mesmo não sendo um muito agradável.

“Oh, é a Mary. É um demónio mal disfarçado. Toma conta da loja de artesanato para os deficientes nas traseiras do prédio. Aposto que estão todos mortos de medo da velha fulana. Nada lhe pode agradar. Seja como for ela não está em muito bom estado, pois não? Não devemos ser muito duros para ela.”

“Molly, você é muito amável. Qualquer que seja o estado em que está não há desculpa para tal rudeza.” Caminhei de volta para o apartamento, sóbria e pensativa.

Por essa altura Chen já utilizava uma cadeira de rodas na maioria das nossas excursões exteriores, as quais, por causa do tempo inclemente, não eram de todo diárias. Mas na vez seguinte em que saímos sugeri-lhe que ele visitasse o local para pessoas deficientes. “É algures ‘nas traseiras’, fazem ali artesanato”, expliquei. Estava curiosa para ver essa mulher pequena mas agressiva no seu próprio terreno. Nesta altura, tranquilizei-me, se a encontrássemos eu extinguir-me-ia na insignificância ao lado de Chen. E foi precisamente isso que aconteceu.

Encontrámos o local com bastante facilidade. Como tinha dito Molly, era nas traseiras do edifício e bastante discreto, tendo em conta as janelas, do tipo das que se consegue ver para fora mas não para dentro. A porta era muito larga, supostamente para dar fácil acesso às cadeiras de rodas, e estava pintada de verde-escuro com um simples sinal preto que dizia “Workshop”.

“Este deve ser o local. Vamos ver se há alguém.” Chen não era conhecido pela timidez, ainda que nunca pudesse ser chamado insistente. Ele pediu-me para bater à porta. “Não, mais alto, Buttercup, nunca ouvirão esse pequeno e delicado toque-toque.” Ao seu convite bati com bastante força, mas ainda tivemos de esperar, embora houvesse uma óbvia atividade no interior. Finalmente a porta foi aberta lentamente, apenas uma fresta, e uma mulher apoiada numa muleta espreitou-nos. “O que é?” perguntou, “Não esperamos entregas hoje.”.

Então o demónio apareceu na sua cadeira de rodas, empurrando inteligentemente a mulher para o lado com a sua bengala. “Afasta-te Betty, afasta-te, quem é essa gente?” Ela abriu mais a porta enquanto manobrava a sua cadeira de rodas para nos poder ver melhor. Então ela viu Chen. Eu estava em pé atrás dele e a cena toda era merecedora de um filme. Se o seu maxilar pudesse cair teria caído, mas a sua face era tão retorcida e marcada com doenças, tão ressequida e apertada que não possibilitava expressões faciais, mas ela visivelmente “estancou nos seus pés” por uma fracção de segundo, como se a vida tivesse mudado de algum modo, apenas um segundo até ganhar outra vez o controle, mas foi como se então ela soubesse que tinha encontrado o seu complemento. Talvez tenha sido para ela semelhante ao meu primeiro encontro com Chen quando eu me senti deixar o corpo e ver a cena de cima. O que quer que tenha sido, soube que alguma coisa diferente lhe tinha acontecido. É dito, e eu creio nisso, que a doença crónica ou deficiências aumentam a sensibilidade de uma pessoa, e esta cena tinha toda a aparência de que ela soube instintivamente que estava na presença de alguém, algo muito poderoso, mais do que ela própria. A maioria dos psíquicos genuínos, por exemplo, não goza de uma saúde robusta, se a tivessem não seriam recetivos às altas vibrações. Não estou a sugerir que Mary fosse psíquica, mas ela era mais recetiva e sensível do que a maioria das pessoas quando têm saúde normal.

“Estava a pensar se poderia dar uma vista de olhos na sua loja. Tenho ouvido boas referências sobre ela. Como pode ver, eu próprio sou um deficiente.”-Chen falou facilmente, sem ser demasiado amigável, apenas no seu modo normal, exsudando confiança e amabilidade. Ele foi talvez o primeiro homem que ela alguma vez encontrou e que respeitou ao ver. Foi-nos facultada uma viagem pelo local. As doenças mentais precisam de uma compreensão especial e parecia que cerca de metade das pessoas na loja sofriam de uma forma ou outra de doença mental. As restantes eram semelhantes a Mary, mas não tão severamente doentes apesar de umas poucas estarem em cadeiras de rodas, manuais. Mary era a rainha do lugar com a sua cadeira de rodas motorizada e a sua habilidade para controlar e organizar. Parece que eles se encontravam aqui nesta sala grande todos os dias para fazer os seus hobbies, trocar ideias e socializar, um centro de dia para os que tinham limitações. E não obstante ela ser de facto um demónio, o lugar não teria existido sem o seu astuto sentido de negócio e as suas capacidades organizativas.

Depois disso as nossas visitas à oficina tornaram-se cada vez mais frequentes. Se houvesse em casa alguma coisa que Chen decidisse que podiam utilizar, livros, ferramentas de escultura, suprimentos de madeira, tintas, então nós iriamos até à porta verde com o símbolo preto. À medida que passava o tempo podia-se ver uma mudança em Mary. Ria por vezes, um tilintar como água caindo sobre pedras, a sua face tentava sorrir, estava mais relaxada e desapareceu a bengala ameaçadora. A atmosfera era melhor e a turma com limitações acolhia as nossas visitas com os braços abertos. As suas vidas tinham mudado, o demónio tinha suavizado. Mas ela era possessiva e não tinha intenção de deixar alguém ter muito acesso a Chen. Ele era dela, definitiva e irrevogavelmente dela. De facto, o que aconteceu foi que ela apaixonou-se de cabeça por ele!

A maravilha foi que Chen não fez nada para a dissuadir. Não era raro que os admiradores dos seus livros, mulheres em particular, se tornavam obsessivos sobre ele e, invariavelmente, ele imediatamente cortava a ideia. Mas com Mary era diferente. Ela não era uma fã dos seus livros ou dos seus ensinamentos, era uma alma perturbada que tinha cruzado o seu caminho. O que ela ansiava da vida e não tinha qualquer expectativa de alguma vez obter ou experimentar era uma forte emoção positiva, uma paixão que poderia alterar e redirecionar a química do seu corpo, e era pouco provável que qualquer outro homem alguma vez lhe permitisse apaixonarse por ele. De criatura atrofiada e amarga em que se tornou ao longo de uma vida de doença e rejeição, parecia que a sua alma se elevou a novas alturas. Ela acordava cada dia com a felicidade de estar viva. Finalmente alguém apareceu, alguém que ela respeitava e amava, que se tornou uma parte da sua vida, que professava um interesse nela. Apesar da sua doença e da dor, ela era radiosa, podia ser engraçada e espirituosa. Era como se tivesse renascido. Tinha cuidado com a sua aparência e foi tão longe que até usou um toque de batom. Foi miraculoso testemunhar.

Não me consigo recordar de Chen alguma vez falar com alguém ao telefone, mas ela ligava-lhe regularmente e ele falava com ela por quinze a vinte minutos de cada vez, segurando o auscultador na sua cabeça para apanhar por condução óssea aquilo que era incapaz de ouvir. Depois das chamadas ele estava exausto. Ela não tinha qualquer indício da fadiga que lhe causava e, mesmo que tivesse, será que teria desistido? Duvido disso. O amor pode ser também egoísta.

Por fim sucumbiu à sua doença, mas a sua morte foi pacífica. Ela tinha recebido o maior presente de todos, finalmente depois de uma vida gasta dentro de um corpo feio e doente, ela encontrou amor e felicidade e respondeu.

Ter-vos-ei dado algum pequeno vislumbre do mundo de Rampa? Era um mundo tão diferente daquele que conhecemos como normal e, ainda assim, tão fácil de nos acostumarmos. Não foi, por consequência, uma tarefa simples fazer a transição de novo para o mundo normal, depois de ter vivido com ele tantos anos e há um outro episódio que tenho de contar que talvez exemplifique isso bastante bem.

Vim para Vancouver para encontrar um trabalho e uma casa. Tinha então poucos artigos que valorizava, mas nenhum dos essenciais, pois por natureza não sou especialmente prática. O meu senhorio era um sujeito decente e um dia veio ver-me, suponho que para receber a renda, e reparou que os meus únicos talheres eram um canivete, uma colher e um garfo de plástico. Chocado, convidou-me a subir para o seu apartamento onde tinha algumas “sobras”. Rebuscou na sua cozinha e encontrou dois conjuntos de cutelaria. “Este”, disse apontando para um conjunto, “é o melhor. É bonito não é?”.

“Sim, é lindíssimo! É muita gentileza sua.” Estava prestes a pegar o conjunto quando ele o agarrou antes que eu pudesse.

“Eu disse que era o melhor. Você pode ficar com o outro, eu não preciso dele e de qualquer modo não gosto muito dele. Mas ser-lhe-á útil.”

Fiquei mortificada. Deve ter pensado que eu era gananciosa e sôfrega, mas a verdade era que eu tinha vivido com Chen por demasiado tempo. No mundo que eu tinha deixado tão recentemente, no seu mundo, se Chen tivesse duas coisas de algo e se cruzasse com alguém que quisesse o que ele tivesse, sempre partilhava a coisa de que gostava mais e guardava para si a outra, de modo bastante oposto ao meu senhorio “normal”. Posso recordá-lo sentado com as pernas cruzadas na sua cama com talvez dois relógios, ou dois canivetes, ou dois rádios transístores. “Agora, de qual gostas mais?”, perguntar-nos-ia. Aquele selecionado como vencedor, o melhor na nossa opinião e na dele também, iria para a pessoa que tinha em mente. Ou se tinha alguma coisa que outra pessoa cobiçava ou precisava, ele dava-a imediatamente sem barulho ou alarde, ele podia prosseguir sem isso mesmo se fosse algo de que gostasse muito. Eu cresci acostumada a esse modo de dar, tão acostumada que tinha esquecido que esse não é o modo pelo qual a dádiva é feita no mundo normal.

Mas eu pergunto, apenas pergunto, se seria possível para nós emular o seu modo, a sua graça. Poderíamos talvez, pouco a pouco, espalhar o seu modo e este tornar-se no final normal para todos? Uma vez que possas ultrapassar essa barreira e começar a dar livremente de ti mesmo, isso torna-se fácil, um hábito, e as recompensas são enormes. Mesmo não sendo esse o objeto da dádiva, uma pessoa recebe de volta cem vezes mais. Reconheço que é difícil imaginar um mundo sem ganância, mas não é impossível – ele fez isso. Possamo-lo também nós.

FIM